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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

HIC ET NUNC


HIC ET NUNC
O ASSOMBROSO UNIVERSO DO DESFRUTE INDIVIDUAL

O progresso técnico-científico traz consigo meios, que sem dúvida são positivos, podendo potenciar uma saudável convivência entre os povos. No entanto a realidade mostra um mundo envolvido em conflitos, mais ou menos complexos, mas que sempre levam ao afastamento entre uns e outros. Vivemos uma época de disfrute individual, em que todos se centram sobre si mesmos em que tudo é imediato, retirando uma perspectiva futura de existência em que se valoriza o essencial e refute o acessório. O secularismo individualista pela obtenção do êxito impede, muitas vezes, a criação de um pensamento que privilegie um mundo enquanto lugar de promoção da convivência da partilha, em vez de uma aposta constante na concorrência, nem sempre limpa e correta. Ser competitivo não retira a capacidade de cooperação, antes pelo contrário, a concorrência “limpa” deverá apostar num sucesso fomentador de desenvolvimento coletivo. Claro que o reconhecimento individual é importante, já que valoriza o esforço e a aplicação, refutando a preguiça e a distração, no entanto esta valorização não pode ser o fim mas o meio para um progresso para o bem-estar coletivo.
A sociedade tem cada vez mais se desprendido da sociologia e da filosofia, estamos perante um ser humano confrontado com uma cadeia de valores frágeis, que se alteram conforme tendências, uma “new age” que cria um mundo somente para si mesmo, composto pelo egoísmo materialista, originando que conceitos como fraternidade e partilha sejam apenas debatidos como algo alheio a cada um.

Este facto tem levado ao pouco interesse pelo religioso, tudo se coloca na agenda do hoje, acentuada pelo culto de do eu individualista.
O próprio disfrute individual, tem também reflexos no próprio “universo” religioso, em cada um constrói o seu Cristo, mas poucos seguem Jesus de Nazaré.
Deus em si mesmo não tem religião, as religiões têm sempre um carater de identificação cultural para o encontro com o divino.
Ter fé não é : “pensar que...”, “desejar que...”, ou mesmo “sonhar que...”. As respostas sobre as razões da fé não estão nas evidências daquilo que é acreditado, que não deixando de serem razões, têm no entanto a sua origem a partir da autoridade Daquele que nos propõe a acreditar. A fé cristã tem as suas bases numa pessoa, na pessoa de Jesus de Nazaré.

“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.”
(Deus Caritas est, 1)

A partir desta fé inicial, todos podemos ser tocados por Deus, um tocar envolto no eterno beijo divino, assim e neste acolhimento do amor de Deus (“tocar divino”) somos chamados a uma entrega consciente e livre em colocarmo-nos nas “mãos de Deus”. Ao colocarmos verdadeiramente Deus como motor da nossa existência, recusamos naturalmente viver sem esta presença divina na nossa vida. Jamais podemos desprender a fé da própria revelação de Deus, um Deus que não obriga a acreditar, mas que Se dá à criatura amada, entrando “dialogo”, elevando deste modo a própria pessoa humana, que mesmo sem o merecer, apresenta-se como interlocutor divino, podendo agir no mundo como presença visível de um Deus invisível.  


Durante a nossa existência passamos por tentações, para as quais não temos, muitas vezes, a força e a determinação para as recusar. As tentações no deserto (cf. Mt 4,1-11; Mc 1-12-13; Lc 4-1-13), são também as nossas tentações perante um mundo envolvido no puro hedonismo e num materialismo a de proporções gigantescas. A forma de “lutarmos” contra as tentações não pode ser remetida para o mero discurso retórico e muitas vezes utópico. Como crentes devemos ser os primeiros a refletir na Palavra perante as incidências da vida, e não em remetê-la apenas para os locais de culto. A forma de combater as tentações tem de fazer parte da postura quotidiana, em que a resposta tem que surgir a partir da própria postura inequívoca de Jesus.



Ao analisarmos as três tentações de Jesus no deserto, notamos que estas não são apenas inscritas originariamente no Evangelho, assim já literatura prototestamentária estes aspetos são abordados, existindo grandes paralelismos nas palavras de Jesus e nos textos mais antigos.
No jejum de Jesus vemos a inspiração em Dt 8,2-3 sendo que os próprios quarenta dias são perfeitamente visíveis em Ex 34,28 e Dt 9,9.

“Recorda-te de todo esse caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante quarenta anos pelo deserto, a fim de te humilhar, para te experimentar, para conhecer o teu coração e ver se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou e fez passar fome; depois, alimentou-se com esse maná, que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te ensinar que nem só de pão vive o homem; que tudo o que sai da boca do Senhor é que o homem viverá”
(Dt 8,2-3)

“Moisés permaneceu junto do Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água. E escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos.”
(Ex 34,28)

““Quando subi à montanha para receber as tábuas da aliança que o Senhor fez convosco, permaneci na montanha na montanha quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água”
(Dt 9,9)

A ostentação é refletida em Sl 91,11-12, sendo que o próprio Jesus cita Dt 6,16

“É que Ele deu ordens aos seus anjos,
para que te guardem em todos os teus caminhos.
Eles hão-de elevar-te na palma das mãos,
para que não tropeces em nenhuma pedra.”
(Sl 91,11-12)

“Não tenteis o Senhor vosso Deus, como tentaste em Massá”
(Dt 6,16)

Na idolatria os paralelismos aparecem em Dt 34,1-4, e a resposta de Jesus é refletida em Dt 6,13

“Moisés subiu das planícies de Moab ao monte Nebo, ao cimo do Pisga, que está em frente de Jericó. O Senhor mostrou-lhe toda a terra, desde Guilead até Dan, todo o Neftali, o território de Enfraim e de Manassés, todo o território de Judá até ao mar ocidental, o Négueb, o Quicar, no vale de Jericó, cidade das Palmeiras até Soar”
(Dt 34,1-4) … com a diferença de quem mostra, de quem quer ser quem…

“Ao Senhor, teu Deus, adorarás, a Ele servirás, e pelo seu nome jurarás”
(Dt 6,13)

Este deserto de profundo recolhimento (cf. Os 2,16-20) tem que ser para nós, principalmente nesta época quaresmal, como um momento de reflexão, de um olhar sobre a vida e sobre o mundo, para que a partir de uma fé sólida e realista possamos trilhar um caminho para uma vida renovada.

Os três anos de vida pública de Jesus foram marcados por uma intensidade dramática ao nível divino e humano. Assim, a nossa resposta, enquanto Igreja viva, deve ter em Cristo a inspiração para uma atitude participativa na sociedade e no mundo, valorizando a Pessoa em toda a sua dimensão. Esta atitude deve ser entendida como missão, uma missão em desprendimento total dos nossos propósitos egoístas, que não busque o reconhecimento, mas que se concretize no serviço. Também nós necessitamos cada vez mais da busca pelo silêncio do recolhimento, de momentos de profunda reflexão acerca do nosso propósito de existência, e não de um constante interesse pelo disfrute individualista de sensações, mais ou menos passageiras, mas que em nada alimentam a consciência do essencial; andamos muitas vezes perdidos (se bem que não o admitamos) no barulho da distração.
Cristo fez-se interiormente e exteriormente igual a nós (cf. Heb 2,17), tendo mesmo se compadecido com as nossas fraquezas e faltas, porque em tudo foi igual a nós exceto no pecado (cf. Heb 4,15).

Na vida concreta cristã, a Doutrina Social da Igreja atravessa uma fase um pouco desanimadora. Andamos alheados da natureza da moral cristã, da sua forma como nos convoca para sermos fermento da sociedade, enveredando por um via de dignificação permanente da criatura amada.



PARTINDO DA CORAGEM PERANTE A FRAGILIDADE,
PARA A GRAÇA DA EXISTÊNCIA COMO DÁDIVA
Atravessamos, como alguns referem, “a passagem da cultura dogmática para a cultura da incerteza”, esta realidade leva a que, juntamente com um coração aberto, devamos também estar cientes do que somos e do que nos torna cristãos, excluindo sempre presunções de que somos os detentores de toda a verdade, mas que através dela sejamos capazes, isso sim, de acolher o outro como imagem do Outro, Esse Outro que ao fazer-Se homem assume na vida terrena a manifestação divina de Deus. Jesus ao cumprir a vontade, incorpora a própria verdade encarnada Nele, sem nunca deixar de ser homem. Na Sua palavra reflete-se a beleza Daquele que É (cf. Ex3,14), Dele vem o sopro inspirador para a Igreja, que se refletirá numa formação de uma “nova” ética moral, em que Jesus Cristo, não fique remetido para o universo religioso, mas que faça realmente parte da vida.

Nestes dias em que a informação “viaja” facilmente no mundo, temos de ter a capacidade de fomentarmos o desejo pelo encontro de Deus na vida de cada um, porque a vida sendo dádiva, é em si mesma aberta à presença de Deus, que a eleva e a aperfeiçoa – “elevat et perficit” -.
A tendência para se expulsar a ética cristã da construção social, tem oferecido uma contrapartida cruel e sem esperança, assim, e ao contrário do que se possa pensar, aqui pode estar a chave para uma renovada dinamização da própria fé, uma fé que se deixe tocar pelo amor divino para a construção de uma existência mais humanizante. A fé particular (em que muitas vezes construímos, erradamente, um deus somente nosso) pode ser o início para abrir o interesse pelo Evangelho.

O vinculo do amor não deriva de soluções técnicas, mas sim da profunda graça de Deus, que sendo Amor se dá em Amor e em Amor se manifesta a todos. Assim a própria solução técnica, bem como as ações concretas da doutrina devem ter no amor dedicado a sua força, porque a graça do Amor de Deus nunca destrói a natureza – “gratia non destruit naturam” -.
Na humanidade de Cristo ficamos perfeitamente conscientes do “não fazer” e do “não cumprir” a Sua vontade. É impressionante como se nega todos os dias a Cristo, mentimo-nos a nós mesmos, fazendo crer que estamos a seguir o Seu caminho... mas se pararmos, notamos a verdade que queima o coração.

“Jesus tomou, pois, a palavra e começou a dizer-lhes:
“Em verdade, em verdade vos digo: o Filho, por si mesmo, não pode fazer nada, senão o que vir fazer ao Pai, pois aquilo que este faz também o faz igualmente o Filho””
(Jo 5,19)

““A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém está disposto a fazer a vontade dele, é capaz de ajuizar se a doutrina procede de Deus, ou se Eu falo por minha conta.””
(Jo 7,16-17)

““Realmente não eram capazes de crer, por isso Isaías também dissera:
Cegou-lhes os olhos
e endureceu-lhes o coração,
para não verem com os olhos
e não entenderam com o coração
e não se converterem
e Eu ter de os curar.””
(Jo 12,39-40)

““Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras tem quem o julgue: a palavra que Eu anunciei, essa é que o há-de julgar no último dia; porqu Eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, é que me encarregou do que devo dizer e anunciar.”
(Jo 12,48-49)

““Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai, e o que pedirdes em meu nome Eu o farei, de modo que, no Filho, se manifeste a glória do Pai. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, Eu o farei.””
(Jo 14,12-14)

“Pai, quero que onde Eu estiver estejam também comigo aqueles que Tu confiaste, para que contemplem a minha glória, a glória que me deste, por me teres amado antes da criação do mundo”
(Jo 17,24)



A Trindade eterna leva a todos à ternura do amor desprendido e alerta, porque cada vez mais, numa sociedade envolta por egoísmos (do cada um por si), o grito do sofrimento e da humilhação se escuta no mais profundo silêncio da vergonha, um silêncio que retira a esperança, levando a que muitos optem por pôr fim à vida... daí que a Doutrina Social da Igreja tem hoje que ser colocada em prática por todos e para todos.

Assim não busquemos sempre as lamentações e os problemas, olhemos para o mundo realisticamente, mas sempre envolvidos pela esperança e a alegria de termos um Deus que nos acompanha e nos ampara. Não vivamos imaginando um paraíso ausente, nem paralisados pelos pecados cometidos, tenhamos a consciência de olharmos para a realidade como é, fazendo do nosso tempo, um tempo em que Deus se manifeste no mundo. A humanidade de Cristo está acima dos Estados e das mudanças sociais, Ele é a prova suprema do Amor de Deus pelo mundo, sendo que a generalidade do tempo humano é um fenómeno de analogia intima que esclarece, na sua totalidade, o tempo de Cristo no qual tudo culmina. 





terça-feira, 27 de janeiro de 2015

LIGADOS A DEUS E AOS HOMENS


A nossa vinculação a Deus não se insere numa visão antropocêntrica, ela assume-se através da absoluta e incondicional presença da eterna de Deus. Nesta presença eterna, neste dialogo fascinante e profundo, Ele encarnou na presença concreta de um humano entre humanos, de pessoa entre pessoas, numa relação que ao fazer-se tocar assim permanece (cf. Jo 20,27). Um Deus que se fez homem, e que ao ser homem viveu com as fragilidades e receios humanos, numa vida de profunda entrega e de permanente crescimento espiritual e humano na Sua vida terrena (cf. Mc 7,26-29).
Nesta relação, que nos inquieta e nos fortalece pelo exemplo e que nos aconchega e queima pela palavra, abre-se diante de nós a possibilidade magnifica de fazermos parte do labor de Deus, um chamamento (“Ekklesia”) que se espalha pelo mundo através da ação Igreja.




“Todo o bom cristão deve estar mais pronto a interpretar favoravelmente a opinião ou afirmação obscura do próximo do que a condená-la. Se de modo nenhum a pode aprovar, interrogue-se como é que ele a compreende; se ele pensa ou compreende menos retamente, corrija-o com benevolência; e se isso não basta, tentem-se todos os meios oportunos para que, compreendendo-a bem, ele regresse do erro são e salvo”
(S. Inácio de Loyola)

Na vida comum, o exemplo de Jesus faz-nos sair de nós mesmos, da nossa “zona de conforto”, e buscarmos Cristo através da entrega aos outros de uma forma incondicional, sem querer reconhecimentos, nem nada de retorno... porque tudo já nos foi dado antes. Neste trajeto filial, todos, sem exceções, somos irmãos na presença de Deus Pai todo Poderoso.
É nesta atitude de desprendimento que fazemos dos monólogos diálogos com os outros e com o mundo. Toda a história da salvação assenta num diálogo permanente de Deus com os homens, uma eterna relação que se prende a um amor original, e através deste primeiro amor libertador deveremos responder como atores livres do na Terra, porque “de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que a toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros.” (Gl 5,13-15).

Buscamos provas da existência de Deus,
mas Deus não se prova nas estrelas do céu, nem nos acontecimentos tremendos e espetaculares do universo. Deus é e está em TODA a vida, daí que o importante está em O buscarmos na vida comum, concreta e discreta; na vida que se deixa enamorar pela beleza das coisas, que se comove com ou outros, que se alegra com a felicidade de um irmão, porque na presença do outro está também a presença de Deus.
A encarnação do Logos coloca-nos na própria sintonia com Deus, num enorme e irresistível abraço entre nós e o divino, porque quem ama, faz do amor “ascendente” a Deus, um amor “transversal” aos homens. O mistério do Ágape de Deus, coloca-nos no caminho da nossa própria beleza interior, revista na atitude de serviço e de dádiva aos outros, com todas as alegrias e amarguras da fragilidade existência.

“Conheço as tuas obras. Vê, coloquei diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar. Tens pouca força, mas guardaste a minha palavra e não renegaste o meu nome.”
(Ap 3,8)

Deus doa-se em amor, no entanto este amor não tem uma uniformidade em resposta humana. No entanto não pensemos que somos mais do que os outros, porque os últimos serão os primeiros (cf. Mt 20,16). O que existe é a diferença no acolhimento e na predisposição para o “SIM”, como tão bem nos é apresentado no Quarto Evangelho em relação ao discípulo amado.

“Corriam os dois juntos, mas o discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer...”
(Jo 20,8)

A beleza reside nesta singularidade humana, neste o valor humano, neste incontestável valor da vida...


 
“Na humanidade de Jesus se mostra a santíssima divindade de Cristo”
(S. Inácio de Loyola)



Hoje num mundo tão imediatista, em que toda a informação circula em pouco tempo, torna-se necessário parar e tomar a consciência de que temos um Deus que se fez próximo, um Deus que se dá todos os dias em amor, um Deus que é Ele mesmo amor (cf. 1 Jo 4,16), e que só em amor O podemos compreender e estabelecer com Ele um caminho para a o Seu Reino. Um Deus que se fez homem e através de Jesus Cristo reconhecemos o próprio Deus.
Esta consciência de que somos de Cristo e que Cristo é de Deus, em si mesma a naturalidade da nossa filiação a Deus. O alimento de Deus é a Salvação de todos, e a Salvação de todos liga-se profundamente com a realização plena de cada ser humano.

Meus irmãos:
Por mais que nos esforcemos jamais poderemos determinar a natureza (amorosa) de Deus, apenas sabemos que é amor e que no amor permanece e que no amor se revela.

“Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora, permanecem três coisas:
A fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.”
(1 Cor 13,12-13)

A transcendência surge sempre a partir do amor de Deus, naquilo que é capaz de realizar e está além das nossas capacidade, mas embora seja inexplicável é plenamente sentido, porque O tocamos todos os dias.


 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Notícia (Lusa) : Papa Francisco diz que os bons católicos não devem procriar "como coelhos"

Papa Francisco diz que os bons católicos não devem procriar "como coelhos"


Roma, 19 jan (Lusa) 

O papa Francisco apelou hoje à paternidade responsável e disse que os bons católicos não devem procriar “como coelhos".

Francisco declarou partilhar a doutrina da Igreja contra a contraceção artificial, mas isso não quer dizer que “os cristãos devam ter um filho atrás do outro”.

O líder da Igreja Católica, no voo de regresso ao Vaticano depois da sua visita às Filipinas, referiu que certa vez perguntou a uma mãe de sete filhos – todos nascidos de cesariana - porque estava grávida do oitavo e se queria “deixar para trás sete crianças órfãs”.

“Eu acredito em Deus", respondeu a mulher, o que levou o papa a lembrar: "entretanto, Deus deu-nos meios para sermos responsáveis”.

“Alguns pensam, e desculpem o termo, que para serem bons católicos devem ser como coelhos”, referiu.

Francisco declarou que a criação de uma nova vida é “parte do sacramento do casamento” e, durante sua visita a Manila, já havia defendido fortemente a proibição do papa Paulo VI da contraceção artificial para os católicos, que ocorreu em 1968.

“Paulo VI estava preocupado com o crescimento do neomalthusianismo (defende a restrição do número de crianças pobres que pode haver), o qual tentou controlar a humanidade (…)”, disse.
“O ensinamento chave da Igreja é a responsabilidade parental. E como vamos conseguir isso?

Através do diálogo. Há grupos para o casamento na Igreja, especialistas e padres”, afirmou ainda.
O papa confirmou ainda a sua viagem à África, que passará pelo Uganda e pela República Centro-Africana, para o final do ano. A visita ao continente foi adiada devido ao surto de Ébola em alguns países africanos.

Francisco também referiu que irá visitar o Equador, a Bolívia e o Paraguai em julho.
CSR // JPS

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Início do Advento



Neste domingo um novo ano litúrgico deu início, e com ele o Advento.
Estamos num momento especial para todos os cristãos, celebramos a grandeza da encarnação do “logos”, o Deus que desceu a até nós e se fez homem, um homem igual a nós. Esta é a beleza do nosso Deus, um Deus quem vem ao nosso encontro, que nos interpelam e que exalta a beleza e a singularidade da vida.
Deus é amor, nada mais do que amor, O que O faz onipotente e omnipresente, não é um conceito deturpado de um Deus, em que este se apresenta com mão de ferro sedento de castigo; o Deus de Jesus apresenta-se sim em suavidade, verdade e promovendo a liberdade como valor fundamental para a vida.

O SIM de Maria Santíssima é o reflexo da certeza de Deus, uma SIM não imposto mas em liberdade, no entanto, e a partir desta certeza somos levados à ação, na ajuda permanente na realização obra salvífica de Deus.
Não esperemos que Deus “nos bata à porta” enquanto dormimos, antecipemo-nos para que a Sua chegada seja a confirmação, de nos fez agentes concretos na construção do Reino de Deus.

Muitos perguntam,
Onde está Deus,
Eu respondo:
“nos olhos cintilantes de um uma criança a olhar a beleza do mundo”





 

sábado, 1 de novembro de 2014

IMAGENS




As imagens são uma presença constante e com o cariz de relevo na Igreja, no entanto este aspecto também leva a algumas confusões dentro do próprio culto cristão. Muitos referem que a imagem do crucificado traz consigo uma conotação de sofrimento e de morte, retirando deste modo o que interessa: a ressurreição. Também existem muitos que se referem que este “culto” com imagens, desvirtua a vontade de Deus.


Começaremos mesmo por analisar o Primeiro Mandamento, dos Dez passados a Moisés no Sinai, e onde é realçada a importância da singularidade do Deus único (ponto também mencionado com grande vigor por Jesus Cristo), o mandamento é o seguinte: “Não farás para ti imagem esculpida nem qualquer imagem que exista no alto dos céus, ou do que existe em baixo na Terra, ou do que existe nas águas, por debaixo da Terra” (Ex. 20, 4). No entanto houve uma excepção a pedido do próprio Deus, e ele é precisamente aquilo que estaria ligado ao mais santo e mais importante elemento do Antigo Testamento – a Arca da Aliança. Esta foi realizada a pedido de Deus com todo o seu pormenor, o Santo dos Santos seria pois o local determinado por Deus para comunicar com todos os “Filhos de Israel”.

Como já vimos atrás, S. Paulo vê na figura de Cristo crucificado a “Nova Arca”, agora este é o local de culto, o verdadeiro “lugar de penitência”.

No Islão e no Judaísmo, a partir do séc. III, foram proibidas as imagens, estando assim remetidas a representações geométricas, nos locais de culto.
É curioso notar que antigas sinagogas, a partir de descobertas arqueológicas, mostram que haveria figuras de cenários bíblicos, estes teriam um carácter de representar cenários históricos, fazendo uma ligação do presente e a história através da recordação que estava inscrita na narração. A memória colectiva era assim elevada através da representação dos Actos de Deus, podendo mesmo fazer parte da própria liturgia.
Encontramos também esta forma de expressão nas imagens cristãs das catacumbas. As imagens das acções de Deus eram agora remetidas para a promessa (cumprida) da vinda de Jesus Cristo, ou seja, todas as acções de Deus visavam a preparação da vinda do Salvador, o Messias prometido e cumprido em Jesus Cristo.
Também para nós, cristãos da actualidade, as imagens têm um carácter de se juntar à própria história dos sacramentos, sendo que todos através de Cristo seremos envolvidos pessoalmente nesses acontecimentos.

A esperança, figura bem presente no Cristianismo, é também acção escatológica, sendo que as imagens, neste sentido, remetem assim para a ressurreição. O nosso olhar sobre a Bíblia tem sempre um sentido na concretização da promessa através de Jesus Cristo, o Messias prometido, e com Ele obtemos também uma promessa de um futuro através da concretização da Páscoa do Senhor. Obviamente que estas imagens, tal como as sinagogas iniciais, não tinham uma força artística importante, no entanto a sua profundidade espiritual era bem patente. Estas primeiras pinturas das Igrejas não procuravam fazer qualquer retrato de Jesus, mas sim à Sua imagem, enquanto Mestre surgindo sobretudo como pastor. Aliás esta imagem de pastor associada a Cristo sempre teve um significado importante, Ele é o pastor de toda a Criação, o “logos” que tudo criou. E como pastor não só está no início da criação como na própria salvação de todos os homens.

No entanto estas imagens representativas tiveram uma grande alteração histórica, juntamente com uma alteração da própria expressão da fé. Esta situação deveu-se ao facto de terem surgido duas imagens que não foram consideradas como realizadas pela mão do homem, ficando, por isso, envoltas em grande mistério. Estas imagens (“Archeiropoitas”) tiveram uma posição importante para a própria representação das imagens nas Igrejas. Uma dessas imagens era a “Mandylion”, que segundo algumas fontes, teria sido levada de Edesa (Síria), para Constantinopla, sendo que muitos investigadores ligaram-na com o Santo Sudário que actualmente se encontra em Turim, existem outros que ligam esta imagem à que ficou gravada no lenço de Verónica, quando Jesus em grande sofrimento se dirigia para o calvário. A outra imagem (“Kamulianium) tem uma particularidade ligada à sua lenda: numa região chamada Kamulia (Turquia), uma mulher pagã, viu no lago do seu jardim uma imagem em tela de linho flutuando. A mulher reconheceu esta imagem como a imagem de Jesus, quando a retirou da água e deixou secar, a imagem começou a multiplicar-se.

Na realidade considerou-se como possível ver o rosto de Jesus, tendo a Igreja com estas imagens associado ao cumprimento da promessa: “Quem vê a mim, vê o meu Pai” (Jo. 14, 9). Portanto estes ícones seriam como a presença real da imagem Daquele que se ofereceu em carne para todos nós.

As “Acheropeitos” e as suas representações tiveram uma posição importante para a própria Igreja. Aqui, como é óbvio, surgiu um problema que se prendia com a falsa sacramentalização de imagens. Este problema fez com que surgissem movimentos contrários, recusando o uso de imagens – iconoclasmo – e a destruição destas. Esta atitude estava ligada à ideia da subversão que poderia acontecer na adoração e mesmo na fé, com esta devoção a “ídolos”. Juntamente com esta posição, existiu também um motivo político, os imperadores bizantinos não tinham interesse em provocar problemas nem com os Muçulmanos nem com os Judeus.
Desta forma Cristo deixou de ser representado, podendo somente ser usado o símbolo da cruz, mas no entanto, sem qualquer imagem.

Este conflito entre a Cruz e Imagem levou mesmo a uma batalha teológica entre os iconoclastas e os adeptos dos ícones.

Na realidade,
o ícone não tem como objectivo a representação da imagem no sentido empírico, ela deverá associar-se a uma representação e a uma abertura dos sentidos interiores, é aqui que assenta o verdadeiro sentido da Teologia dos Icones.

Portanto a própria arte sacra tem como caminho a oração, e é neste profundo sentido que as imagens aparecem, não como a forma real, mas como forma de visão interior e de apelo à concentração e à oração. “O ícone vem da oração e conduz à oração”, para tal os sentidos têm de estar libertos de aspectos empíricos, e sempre com uma ligação ao espírito.
Os homens devem ter a capacidade de se abrirem interiormente, não estando somente ligados ao mensurável, mas também ao divino. O olhar ensina-nos a ver Cristo principalmente segundo o espírito. Desde o Concílio de Niceia, passando pelos sínodos, as imagens eram sempre vistas como a encarnação de Deus no homem, e portanto o Iconoclasmo (a negação total das imagens) seria sempre a negação da própria encarnação. É na encarnação que o divino se faz um de nós, um homem concreto e nascido de um ventre, que nos envolve na sua própria ressurreição, através da Pascoa do Senhor.

Ao olhar para a cruz, não é a “feição” de Cristo que me interessa, mas sim a Totalidade do Senhor, que ao fazer-se homem se juntou a nós de uma forma definitiva e eterna. A cruz mostra-nos aquele que através do seu sofrimento, salvou-nos para a vida eterna.

Tal como afirma Bento XVI: “o iconoclasmo tem um efeito redutor da fé”. No entanto vemos que a luta contra as imagens é algo que é visto como um “progresso” para a própria sociedade! Numa sociedade democrática como a nossa, este “iconocolasmo”, vem em contraposição à própria liberdade de expressão. A democracia é também a expressão religiosa no espaço público, inibir a expressão religiosa é inibir a tomada de posições e convicções legítimas. Qualquer que seja a religião deverá ter a sua possibilidade de expressão, e sua expressão pública faz-se muitas vezes através também através de símbolos. Mesmo aqueles que se são ateus, antes de o serem deverão ter a possibilidade de conhecer o aspecto religioso. Esta não é uma questão que se prende somente com os crentes, esta é uma questão de cidadania. Mesmo aqueles que recusam a existência de Deus têm os seus símbolos. A luta contra os símbolos cristãos, não é uma expressão de maturidade social, antes pelo contrário, esta acção leva à “cegueira” da liberdade de escolha. A recusa da expressão simbólica religiosa, é algo que tem uma ligação directa com a cidadania, uma sociedade é tanto mais desenvolvida quanto maior for o seu conhecimento, tanto cientifico, como religioso.

A imagem não é o fundamento de fé, ela remete-nos para a essência, e a essência, para nós cristãos, está na encarnação de Deus no homem, que através do amor deixou-se levar à morte, para a vencer, abrindo-nos assim a nova porta para Deus Pai. Esta é grandeza única do Cristianismo.
O Cristianismo nunca será uma facção política, nem uma tendência de pensamento, o Cristianismo é a revelação da Pascoa do Senhor, a ligação concretizada entre Deus e o homem, em comunhão (“communio”).
 Como católico, tenho a convicção que o Cristianismo, na sua vertente essencial, não nos prende, antes abre-nos para a liberdade. Uma liberdade responsável, em que o bem e o mal estão bem identificados deixando, no entanto, sempre que a escolha seja feita por nós, não a impondo, mas mostrando-a, porque a palavra final será sempre nossa. Esta é a liberdade que Cristo nos deu – “quem quiser sabe o caminho” -, sendo que Ele espera-nos até ao fim, estando sempre disponível para nos “dar a mão”, agora resta-nos fazer a opção…


No entanto e como salientou S. Agostinho: “Cristo não nos salvou através da pintura”.

A cruz de Cristo apresenta-se para toda a comunidade cristã como um símbolo do ressuscitado, sendo um elemento central para toda a Igreja.

Durante toda a história da arte, as várias épocas levaram a que a expressão da arte sacra tivesse também sofrido as suas alterações durante os séculos.
 

Muitos membros da Igreja vêm na actual crise ligada ao panorama de arte sacra actual como uma crise generalizada da arte. Eu não vejo as coisas desta forma, na realidade a Igreja deve estar aberta a outras formas e tendências de arte. Sendo ela forma de comunicação, terá de ser bem, observada com atenção e dedicação, já que a comunicação é missão da Igreja. Desta forma a arte é expressão criativa dada ao mundo, isto leva a que se tenha de ter uma abertura de espírito ao fenómeno artístico actual, procurando realizações de qualidade.
A acção criativa deverá ter uma atitude de inspiração para além das fronteiras reais, “buscando algo mais acima”, buscando no fundo Deus. É necessário olhar em volta, desprendendo-se das “paredes imóveis”, para assim compreender o mundo e saber comunicar com ele.

Claro que a falta de arte sacra deve-se também à forma como vemos o mundo, ou seja a realidade individual ultrapassou a concepção de conjunto, perdemos as respostas comuns.
A forma de se ver o mundo em nome da seriedade científica, obviamente traz consigo enormes benefícios para a humanidade, no entanto, nem tudo tem uma validação científica evidente, se quisermos provar ou comprovar tudo, o mundo torna-se “opaco”. Reparamos que na actualidade, acreditar em Deus é visto por muitos como uma forma imperfeita, e portanto menor, de posicionamento perante a realidade. Também na arte reparamos que o seu sentido de “transcendência” é posto num plano secundário. Ela aparece-nos como uma expressão muitas vezes ligada à experimentação simplicista, e não à criação do belo. A essência do “Creator Spiritus” não está tanto em voga, somos actualmente confrontados por uma “produção” criativa que se reduz em grande parte ao fútil e ao momentâneo.

Podemos pois concluir que o uso de imagens, é parte integrante à Igreja Católica levando-nos para a própria encarnação de Deus. As imagens do belo, que tornam visível o mistério invisível de Deus, fazem parte do culto cristão. O iconoclasmo não se prende com o cristianismo, tanto ao nível histórico, como ao nível de culto e adoração. A arte sacra tem a sua fonte na História da Salvação, tendo assim o seu epílogo no oitavo dia – no dia da Ressurreição -. Esta noção é fundamental, daí que os Santos também tenham uma ligação natural enquadrada nesta realidade, eles são a prova e o cumprimento real da promessa de Cristo. Neles, Cristo vive de uma forma perpétua, renovadora e inspiradora.

“A luta não é apenas contra os ícones, ela também é contra os Santos”.
Esta frase de João de Damasco (ligado ao início da Teologia Sistemática na ortodoxia oriental) foi dada ao Imperador Leão III (Bizantino/Síria) , que era um grande opositor das imagens. Dando uma resposta a este conflito, o Papa Gregório III (?-741), num sínodo em Roma em oposição aos iconoclastas,  instituiu no calendário litúrgico a Festa de Todos os Santos.

As imagens de Deus com os homens não têm somente um carácter de lembrança, elas são também um sentido para o futuro. Daí que as imagens estejam muito ligadas ao Sacramento da Eucaristia, no qual existe uma óbvia referência para o futuro. É por esta razão que a imagem de Cristo é o centro de toda a arte sacra, Ele é a promessa cumprida, a manifestação do amor divino, a incorporação do “verbo” na mais profunda e bela manifestação de Deus em toda a história da humanidade. Ao faze-lo não o fez como forma de mostrar a sua força, mas para mostrar a sua misericórdia e amor. Portanto a imagem de Cristo centrada na sua Pascoa é também o ícone principal da Eucaristia.
As imagens de Cristo e dos Santos não são “fotografias, a sua natureza é a de nos levar para além do terreno, do material, a sua função está no despertar dos nossos sentidos mais interior.


“Nós não rezamos às imagens, nós rezamos com as imagens”.


A arte é acima de tudo manifestação interior, a sua busca pelo belo tem um carácter de singularidade que se faz notar como um verdadeiro dom. Este dom, é a manifestação de Deus no interior do criador, a sua execução não é em sentido de “produção comum”, mas apontando para a singularidade, em que cada manifestação artística seja sempre renovada.
O encontro que Bento XVI fez no mês de Novembro de 2009 com vários artistas de áreas diversificadas, foi sem dúvida uma acção muito positiva, na realidade a Igreja esteve um pouco de “costas voltadas” para a comunidade artística nos últimos tempos, é assim necessário promover uma viragem neste aspecto.
 A Igreja quer mostrar que no interior do espaço católico os artistas encontrão uma casa e uma “pátria”. O chamamento interior para a arte como manifestação de vocação, faz com que a Igreja tenha a necessidade dos artistas, a beleza é uma necessidade para o universo cristão, o caminho terá de ser aberto e contínuo. Através da arte a mensagem atinge um significado de profundidade que ultrapassa muitas vezes qualquer discurso por mais elaborado e fundamentado que seja. Abrir-se aos artistas, é abrir-se à liberdade criativa, à essência da beleza e expressão de Deus.


 

 Cantiones sacrae, VII: Nunc loquar, Domine – Céline Scheen, Stephan Van Dyck, Dirk Snellings, Ensemble Clematis, Leonardo García Alarcón