Translate

sexta-feira, 13 de março de 2015

Notícias - Vaticano: Papa convoca Jubileu dedicado à Misericórdia (Agência Ecclésia)

Francisco voltou a confessar-se na Basílica de São Pedro, durante celebração penitencial

Cidade do Vaticano, 13 mar 2015 (Ecclesia) –

O Papa Francisco anunciou hoje no Vaticano que decidiu proclamar um “jubileu extraordinário”, com início a 8 de dezembro deste ano, centrado na “misericórdia de Deus”.

“Será um Ano Santo da Misericórdia. Queremos vivê-lo à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ e isto especialmente para os confessores”, disse, na homilia da celebração penitencial a que presidiu na Basílica de São Pedro, na abertura da iniciativa ’24 horas para o Senhor’.

Francisco explicou que a iniciativa nasceu da sua intenção de tornar “mais evidente” a missão da Igreja de ser “testemunha da misericórdia”.
O Papa defendeu que “ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus” e que a Igreja “é a casa que acolhe todos e não recusa ninguém”.

“As suas portas estão escancaradas para que todos os que são tocados pela graça possam encontrar a certeza do perdão. Quanto maior é o pecado, maior deve ser o amor que a Igreja manifesta aos que se convertem”, realçou.

À imagem do que fez em 2014, durante o ‘rito pela reconciliação dos mais penitentes’, com absolvição individual, o Papa começou por se confessar, antes de dirigir-se a outro confessionário para ouvir algumas pessoas.

O 29.º jubileu na história da Igreja Católica, um Ano Santo extraordinário, vai começar na solenidade da Imaculada Conceição e terminar a 20 de novembro de 2016, domingo de Jesus Cristo Rei do Universo, “rosto vivo da misericórdia do Pai”, explicou o Papa.

“É um caminho que começa com uma conversão espiritual e temos de seguir por este caminho”, prosseguiu.
A organização dos vários momentos do jubileu vai estar a cargo do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização e quer ser, segundo Francisco, uma “nova etapa do caminho da Igreja na sua missão de levar a cada pessoa o Evangelho da misericórdia”.
Este é o primeiro jubileu desde o que foi convocado pelo João Paulo II no ano 2000, para assinalar o início do terceiro milénio.
Francisco destacou na sua homilia a importância de viver a misericórdia de Deus, através do sacramento da Reconciliação, como “sinal da bondade do Senhor” e do “abraço” de Jesus.
“Ser tocados com ternura pela sua mão e plasmados pela sua graça permite que nos aproximemos do sacerdote sem medo por causa das nossas culpas, mas com a certeza de ser acolhidos por ele em nome de Deus”, assinalou.
O Papa sublinhou que o julgamento de Deus é o da “misericórdia”, numa atitude de amor que “vai para lá da justiça”, e desafiou os fiéis a não ficar pela “superfície das coisas”, sobretudo quando está em causa uma pessoa.
“Somos chamados a ver mais além, a concentrar-se no coração para ver de quanta generosidade é capaz cada um”, apelou.
No dia em que decorre o 2.º aniversário da sua eleição pontifícia, Francisco deixou votos de que o próximo jubileu ajude a Igreja a “redescobrir e tornar fecunda a misericórdia de Deus” junto dos homens e mulheres dos dias de hoje.

Fonte: Agencia Ecclésia

A quem iremos nós Senhor?” (Jo. 3,68)

Esta sensação de finitude é para todos motivo de inquietação, somos pois chamados a enfrentar novas realidades políticas, económicas, sociais e ecológicas. Não podemos jamais ficar presos nos “obstáculos”, assentando as soluções em bases imediatistas (“soluções possíveis”), mas sim na busca de respostas consistentes para a harmonia da civilização. O mundo ocidental, tão orgulhoso de si, está num sobressalto constante, ultrapassar dificuldades não pode jamais fazer da acção humana fator de injustiça, mas sim fazer que todos sejam sujeitos ativos, fazendo da existência fator verdadeiramente aglutinador do ideal fundamental da vocação humana: a vida.

A vida não pode só ser posta na primeira pessoa, a vida tem que ser vivida com os outros, é aí que os problemas terão a sua solução.

Viver é conviver…

A vida fechada em si mesma faz dos problemas barreiras enormes, tornando-a “sufocante” e mesmo “insuportável”. É através do processo de relação que a esperança se faz realidade, notemos que quando uma pessoa desiste de viver é (muitas vezes) quando a sociedade desiste de viver com ela, a dignidade do ser humano (em todas as suas realidades concretas) deverá ser sempre encarada como aspecto fundamental. A desistência não passa somente pela dimensão pessoal, passa também para a dimensão comunitária.

O homem autónomo está a tornar-se num homem autista.

Deus como qualquer pai quer que o seu filho se faça autónomo, que busque o seu caminho. No entanto esta autonomia está a tirar-nos a noção filial perante Deus, a liberdade está a ser colocada como fuga da nossa própria condição, tal como nos mostra o Evangelista S. Lucas em relação à parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32). Também nós estamos muitas vezes numa posição de filhos em busca de uma suposta liberdade, no entanto o que encontramos é a prisão e o desespero. Em Deus encontramos a nossa morada e o nosso consolo, ao querer libertar-nos Dele, caímos no labirinto do mundano, em que a vida se torna superficial, em que nos deixamos corromper pelo orgulho e a vaidade, em que tudo é feito na busca de um retorno, imperando fatalmente a satisfação pessoal e egoísta.

Perdemos a capacidade de escutarmo-nos, cada um tenta colocar a sua posição como “verdade universal”, deixamos de utilizar o silêncio e a solidão, enquanto fator para o encontro com Deus. Estamos a fazer da nossa solidão não a “fonte ” para uma abertura espiritual, mas sim de “terra seca”, tornando-nos “secos” por dentro, não existindo qualquer solução “cosmética” que mascare esta triste realidade. Só em Deus e perante Deus, a nossa vida é relativizada perante os horizontes que Ele nos dá, colocando-nos na direção correta (“oriens”), nesse caminho que Ele também faz na nossa direcção e que nem nos apercebemos. Deus não olha para os homens na aparência, mas sim no coração (cf. 1 Sm 17,7). Infelizmente na condição em temos vivido na atualidade, também Deus aparece como peça descartável, em que só o buscamos quando nos é útil, vivemos uma vida na mais pura ausência de Deus (1). Mais do que um abandono de Deus, o homem em muitas circunstâncias tem-se abandonado de si mesmo.


Da mesma forma que Deus nos procura (cf. Gn. 3,9), nós ficamos muitas vezes retidos na procura, perdidos no meio de um oceano de incertezas, em que não sabemos para onde vamos.

“A quem iremos nós Senhor?” (Jo. 3,68), uma questão colocada por Pedro apresenta-se completamente atual, entramos numa espiral de incertezas, de medos e inseguranças perante futuro. Temos que ser capazes de nos desprender das correntes que nos prendem, olhemos na direção do Deus Vivo, não nos percamos em exercícios de justificação do maligno, quando nem nos abrimos para a beleza inserida na manifestação de Deus como homem, que se abriu à convivência e abitou no meio de nós. Muitas vezes procuramos saber mais de Santos do que do próprio Jesus, quando os mesmos passaram a vida a procurar o Senhor. Não inventemos “cristos” que contradizem a pessoa de Jesus de Nazaré, na realidade concebermos cristo segundo a nossa vontade não é exercício difícil, agora entender Cristo na pessoa concreta de Jesus é que se torna um exercício mais exigente. No entanto foi naquele homem concreto, que conviveu, que chorou, que voltou atrás com a sua palavra, que teve medo... que Deus encarnou e viveu no meio de nós, sendo um com os outros e para ou outros, e não um e os outros.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A 13 de Março de 2013, a chaminé da capela Sistina, em Roma, anunciava a decisão do conclave de cardeais com fumo branco: o novo papa estava escolhido. Dois anos depois, Francisco Bergoglio é hoje um dos papas mais consensuais da história recente, capaz de mobilizar fiéis em todo o mundo e de abordar questões tradicionalmente sensíveis para a igreja católica. Acima de tudo, é um Papa popular: tem 19 milhões de seguidores no Twitter. 
A contracepção, o divórcio e o conceito de família moderna, assim como a homossexualidade, são alguns dos temas que marcaram os seus primeiros dois anos no Vaticano. Embora o seu discurso não se afaste muito da linha defendida pela Igreja Católica - é contra o aborto, contraceptivo e o casamento entre pessoas do mesmo sexo -, Francisco defendeu que os "homossexuais não devem ser marginalizados, mas integrados na sociedade". 
Nascido a 17 de Dezembro de 1936, em Buenos Aires, Argentina, Jorge Mario Bergoglio é o 266º Papa da Igreja Católica e o primeiro não europeu em mais de 1200 anos. Homem de hábitos simples, utiliza regularmente os transportes públicos e raramente janta em restaurantes.  Em Agosto de 2014 algumas notícias davam conta de que teria a intenção de reununciar ao pontificado dentro de dois a três anos, tal como fez o seu antecessor, Bento XVI.
"Eu sei que isto não vai durar muito, dois ou três anos e depois vou para a casa do Senhor", disse numa entrevista durante um voo entre a Coreia do Sul e Roma, segundo a Radio Vaticana.
A SÁBADO faz um balanço destes dois anos com 15 citações, das mais sérias às mais caricatas.
"Parece que os cardeais foram procurar o novo pontífice no fim do mundo"
"Como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres"
"O [sem-abrigo] que morre não é notícia, mas se as bolsas caem 10 pontos é uma tragédia. Assim, as pessoas são descartadas. Nós, as pessoas, somos descartadas, como se fôssemos desperdício"

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

HIC ET NUNC


HIC ET NUNC
O ASSOMBROSO UNIVERSO DO DESFRUTE INDIVIDUAL

O progresso técnico-científico traz consigo meios, que sem dúvida são positivos, podendo potenciar uma saudável convivência entre os povos. No entanto a realidade mostra um mundo envolvido em conflitos, mais ou menos complexos, mas que sempre levam ao afastamento entre uns e outros. Vivemos uma época de disfrute individual, em que todos se centram sobre si mesmos em que tudo é imediato, retirando uma perspectiva futura de existência em que se valoriza o essencial e refute o acessório. O secularismo individualista pela obtenção do êxito impede, muitas vezes, a criação de um pensamento que privilegie um mundo enquanto lugar de promoção da convivência da partilha, em vez de uma aposta constante na concorrência, nem sempre limpa e correta. Ser competitivo não retira a capacidade de cooperação, antes pelo contrário, a concorrência “limpa” deverá apostar num sucesso fomentador de desenvolvimento coletivo. Claro que o reconhecimento individual é importante, já que valoriza o esforço e a aplicação, refutando a preguiça e a distração, no entanto esta valorização não pode ser o fim mas o meio para um progresso para o bem-estar coletivo.
A sociedade tem cada vez mais se desprendido da sociologia e da filosofia, estamos perante um ser humano confrontado com uma cadeia de valores frágeis, que se alteram conforme tendências, uma “new age” que cria um mundo somente para si mesmo, composto pelo egoísmo materialista, originando que conceitos como fraternidade e partilha sejam apenas debatidos como algo alheio a cada um.

Este facto tem levado ao pouco interesse pelo religioso, tudo se coloca na agenda do hoje, acentuada pelo culto de do eu individualista.
O próprio disfrute individual, tem também reflexos no próprio “universo” religioso, em cada um constrói o seu Cristo, mas poucos seguem Jesus de Nazaré.
Deus em si mesmo não tem religião, as religiões têm sempre um carater de identificação cultural para o encontro com o divino.
Ter fé não é : “pensar que...”, “desejar que...”, ou mesmo “sonhar que...”. As respostas sobre as razões da fé não estão nas evidências daquilo que é acreditado, que não deixando de serem razões, têm no entanto a sua origem a partir da autoridade Daquele que nos propõe a acreditar. A fé cristã tem as suas bases numa pessoa, na pessoa de Jesus de Nazaré.

“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.”
(Deus Caritas est, 1)

A partir desta fé inicial, todos podemos ser tocados por Deus, um tocar envolto no eterno beijo divino, assim e neste acolhimento do amor de Deus (“tocar divino”) somos chamados a uma entrega consciente e livre em colocarmo-nos nas “mãos de Deus”. Ao colocarmos verdadeiramente Deus como motor da nossa existência, recusamos naturalmente viver sem esta presença divina na nossa vida. Jamais podemos desprender a fé da própria revelação de Deus, um Deus que não obriga a acreditar, mas que Se dá à criatura amada, entrando “dialogo”, elevando deste modo a própria pessoa humana, que mesmo sem o merecer, apresenta-se como interlocutor divino, podendo agir no mundo como presença visível de um Deus invisível.  


Durante a nossa existência passamos por tentações, para as quais não temos, muitas vezes, a força e a determinação para as recusar. As tentações no deserto (cf. Mt 4,1-11; Mc 1-12-13; Lc 4-1-13), são também as nossas tentações perante um mundo envolvido no puro hedonismo e num materialismo a de proporções gigantescas. A forma de “lutarmos” contra as tentações não pode ser remetida para o mero discurso retórico e muitas vezes utópico. Como crentes devemos ser os primeiros a refletir na Palavra perante as incidências da vida, e não em remetê-la apenas para os locais de culto. A forma de combater as tentações tem de fazer parte da postura quotidiana, em que a resposta tem que surgir a partir da própria postura inequívoca de Jesus.



Ao analisarmos as três tentações de Jesus no deserto, notamos que estas não são apenas inscritas originariamente no Evangelho, assim já literatura prototestamentária estes aspetos são abordados, existindo grandes paralelismos nas palavras de Jesus e nos textos mais antigos.
No jejum de Jesus vemos a inspiração em Dt 8,2-3 sendo que os próprios quarenta dias são perfeitamente visíveis em Ex 34,28 e Dt 9,9.

“Recorda-te de todo esse caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante quarenta anos pelo deserto, a fim de te humilhar, para te experimentar, para conhecer o teu coração e ver se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou e fez passar fome; depois, alimentou-se com esse maná, que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te ensinar que nem só de pão vive o homem; que tudo o que sai da boca do Senhor é que o homem viverá”
(Dt 8,2-3)

“Moisés permaneceu junto do Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água. E escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos.”
(Ex 34,28)

““Quando subi à montanha para receber as tábuas da aliança que o Senhor fez convosco, permaneci na montanha na montanha quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água”
(Dt 9,9)

A ostentação é refletida em Sl 91,11-12, sendo que o próprio Jesus cita Dt 6,16

“É que Ele deu ordens aos seus anjos,
para que te guardem em todos os teus caminhos.
Eles hão-de elevar-te na palma das mãos,
para que não tropeces em nenhuma pedra.”
(Sl 91,11-12)

“Não tenteis o Senhor vosso Deus, como tentaste em Massá”
(Dt 6,16)

Na idolatria os paralelismos aparecem em Dt 34,1-4, e a resposta de Jesus é refletida em Dt 6,13

“Moisés subiu das planícies de Moab ao monte Nebo, ao cimo do Pisga, que está em frente de Jericó. O Senhor mostrou-lhe toda a terra, desde Guilead até Dan, todo o Neftali, o território de Enfraim e de Manassés, todo o território de Judá até ao mar ocidental, o Négueb, o Quicar, no vale de Jericó, cidade das Palmeiras até Soar”
(Dt 34,1-4) … com a diferença de quem mostra, de quem quer ser quem…

“Ao Senhor, teu Deus, adorarás, a Ele servirás, e pelo seu nome jurarás”
(Dt 6,13)

Este deserto de profundo recolhimento (cf. Os 2,16-20) tem que ser para nós, principalmente nesta época quaresmal, como um momento de reflexão, de um olhar sobre a vida e sobre o mundo, para que a partir de uma fé sólida e realista possamos trilhar um caminho para uma vida renovada.

Os três anos de vida pública de Jesus foram marcados por uma intensidade dramática ao nível divino e humano. Assim, a nossa resposta, enquanto Igreja viva, deve ter em Cristo a inspiração para uma atitude participativa na sociedade e no mundo, valorizando a Pessoa em toda a sua dimensão. Esta atitude deve ser entendida como missão, uma missão em desprendimento total dos nossos propósitos egoístas, que não busque o reconhecimento, mas que se concretize no serviço. Também nós necessitamos cada vez mais da busca pelo silêncio do recolhimento, de momentos de profunda reflexão acerca do nosso propósito de existência, e não de um constante interesse pelo disfrute individualista de sensações, mais ou menos passageiras, mas que em nada alimentam a consciência do essencial; andamos muitas vezes perdidos (se bem que não o admitamos) no barulho da distração.
Cristo fez-se interiormente e exteriormente igual a nós (cf. Heb 2,17), tendo mesmo se compadecido com as nossas fraquezas e faltas, porque em tudo foi igual a nós exceto no pecado (cf. Heb 4,15).

Na vida concreta cristã, a Doutrina Social da Igreja atravessa uma fase um pouco desanimadora. Andamos alheados da natureza da moral cristã, da sua forma como nos convoca para sermos fermento da sociedade, enveredando por um via de dignificação permanente da criatura amada.



PARTINDO DA CORAGEM PERANTE A FRAGILIDADE,
PARA A GRAÇA DA EXISTÊNCIA COMO DÁDIVA
Atravessamos, como alguns referem, “a passagem da cultura dogmática para a cultura da incerteza”, esta realidade leva a que, juntamente com um coração aberto, devamos também estar cientes do que somos e do que nos torna cristãos, excluindo sempre presunções de que somos os detentores de toda a verdade, mas que através dela sejamos capazes, isso sim, de acolher o outro como imagem do Outro, Esse Outro que ao fazer-Se homem assume na vida terrena a manifestação divina de Deus. Jesus ao cumprir a vontade, incorpora a própria verdade encarnada Nele, sem nunca deixar de ser homem. Na Sua palavra reflete-se a beleza Daquele que É (cf. Ex3,14), Dele vem o sopro inspirador para a Igreja, que se refletirá numa formação de uma “nova” ética moral, em que Jesus Cristo, não fique remetido para o universo religioso, mas que faça realmente parte da vida.

Nestes dias em que a informação “viaja” facilmente no mundo, temos de ter a capacidade de fomentarmos o desejo pelo encontro de Deus na vida de cada um, porque a vida sendo dádiva, é em si mesma aberta à presença de Deus, que a eleva e a aperfeiçoa – “elevat et perficit” -.
A tendência para se expulsar a ética cristã da construção social, tem oferecido uma contrapartida cruel e sem esperança, assim, e ao contrário do que se possa pensar, aqui pode estar a chave para uma renovada dinamização da própria fé, uma fé que se deixe tocar pelo amor divino para a construção de uma existência mais humanizante. A fé particular (em que muitas vezes construímos, erradamente, um deus somente nosso) pode ser o início para abrir o interesse pelo Evangelho.

O vinculo do amor não deriva de soluções técnicas, mas sim da profunda graça de Deus, que sendo Amor se dá em Amor e em Amor se manifesta a todos. Assim a própria solução técnica, bem como as ações concretas da doutrina devem ter no amor dedicado a sua força, porque a graça do Amor de Deus nunca destrói a natureza – “gratia non destruit naturam” -.
Na humanidade de Cristo ficamos perfeitamente conscientes do “não fazer” e do “não cumprir” a Sua vontade. É impressionante como se nega todos os dias a Cristo, mentimo-nos a nós mesmos, fazendo crer que estamos a seguir o Seu caminho... mas se pararmos, notamos a verdade que queima o coração.

“Jesus tomou, pois, a palavra e começou a dizer-lhes:
“Em verdade, em verdade vos digo: o Filho, por si mesmo, não pode fazer nada, senão o que vir fazer ao Pai, pois aquilo que este faz também o faz igualmente o Filho””
(Jo 5,19)

““A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém está disposto a fazer a vontade dele, é capaz de ajuizar se a doutrina procede de Deus, ou se Eu falo por minha conta.””
(Jo 7,16-17)

““Realmente não eram capazes de crer, por isso Isaías também dissera:
Cegou-lhes os olhos
e endureceu-lhes o coração,
para não verem com os olhos
e não entenderam com o coração
e não se converterem
e Eu ter de os curar.””
(Jo 12,39-40)

““Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras tem quem o julgue: a palavra que Eu anunciei, essa é que o há-de julgar no último dia; porqu Eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, é que me encarregou do que devo dizer e anunciar.”
(Jo 12,48-49)

““Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai, e o que pedirdes em meu nome Eu o farei, de modo que, no Filho, se manifeste a glória do Pai. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, Eu o farei.””
(Jo 14,12-14)

“Pai, quero que onde Eu estiver estejam também comigo aqueles que Tu confiaste, para que contemplem a minha glória, a glória que me deste, por me teres amado antes da criação do mundo”
(Jo 17,24)



A Trindade eterna leva a todos à ternura do amor desprendido e alerta, porque cada vez mais, numa sociedade envolta por egoísmos (do cada um por si), o grito do sofrimento e da humilhação se escuta no mais profundo silêncio da vergonha, um silêncio que retira a esperança, levando a que muitos optem por pôr fim à vida... daí que a Doutrina Social da Igreja tem hoje que ser colocada em prática por todos e para todos.

Assim não busquemos sempre as lamentações e os problemas, olhemos para o mundo realisticamente, mas sempre envolvidos pela esperança e a alegria de termos um Deus que nos acompanha e nos ampara. Não vivamos imaginando um paraíso ausente, nem paralisados pelos pecados cometidos, tenhamos a consciência de olharmos para a realidade como é, fazendo do nosso tempo, um tempo em que Deus se manifeste no mundo. A humanidade de Cristo está acima dos Estados e das mudanças sociais, Ele é a prova suprema do Amor de Deus pelo mundo, sendo que a generalidade do tempo humano é um fenómeno de analogia intima que esclarece, na sua totalidade, o tempo de Cristo no qual tudo culmina. 





terça-feira, 27 de janeiro de 2015

LIGADOS A DEUS E AOS HOMENS


A nossa vinculação a Deus não se insere numa visão antropocêntrica, ela assume-se através da absoluta e incondicional presença da eterna de Deus. Nesta presença eterna, neste dialogo fascinante e profundo, Ele encarnou na presença concreta de um humano entre humanos, de pessoa entre pessoas, numa relação que ao fazer-se tocar assim permanece (cf. Jo 20,27). Um Deus que se fez homem, e que ao ser homem viveu com as fragilidades e receios humanos, numa vida de profunda entrega e de permanente crescimento espiritual e humano na Sua vida terrena (cf. Mc 7,26-29).
Nesta relação, que nos inquieta e nos fortalece pelo exemplo e que nos aconchega e queima pela palavra, abre-se diante de nós a possibilidade magnifica de fazermos parte do labor de Deus, um chamamento (“Ekklesia”) que se espalha pelo mundo através da ação Igreja.




“Todo o bom cristão deve estar mais pronto a interpretar favoravelmente a opinião ou afirmação obscura do próximo do que a condená-la. Se de modo nenhum a pode aprovar, interrogue-se como é que ele a compreende; se ele pensa ou compreende menos retamente, corrija-o com benevolência; e se isso não basta, tentem-se todos os meios oportunos para que, compreendendo-a bem, ele regresse do erro são e salvo”
(S. Inácio de Loyola)

Na vida comum, o exemplo de Jesus faz-nos sair de nós mesmos, da nossa “zona de conforto”, e buscarmos Cristo através da entrega aos outros de uma forma incondicional, sem querer reconhecimentos, nem nada de retorno... porque tudo já nos foi dado antes. Neste trajeto filial, todos, sem exceções, somos irmãos na presença de Deus Pai todo Poderoso.
É nesta atitude de desprendimento que fazemos dos monólogos diálogos com os outros e com o mundo. Toda a história da salvação assenta num diálogo permanente de Deus com os homens, uma eterna relação que se prende a um amor original, e através deste primeiro amor libertador deveremos responder como atores livres do na Terra, porque “de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que a toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros.” (Gl 5,13-15).

Buscamos provas da existência de Deus,
mas Deus não se prova nas estrelas do céu, nem nos acontecimentos tremendos e espetaculares do universo. Deus é e está em TODA a vida, daí que o importante está em O buscarmos na vida comum, concreta e discreta; na vida que se deixa enamorar pela beleza das coisas, que se comove com ou outros, que se alegra com a felicidade de um irmão, porque na presença do outro está também a presença de Deus.
A encarnação do Logos coloca-nos na própria sintonia com Deus, num enorme e irresistível abraço entre nós e o divino, porque quem ama, faz do amor “ascendente” a Deus, um amor “transversal” aos homens. O mistério do Ágape de Deus, coloca-nos no caminho da nossa própria beleza interior, revista na atitude de serviço e de dádiva aos outros, com todas as alegrias e amarguras da fragilidade existência.

“Conheço as tuas obras. Vê, coloquei diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar. Tens pouca força, mas guardaste a minha palavra e não renegaste o meu nome.”
(Ap 3,8)

Deus doa-se em amor, no entanto este amor não tem uma uniformidade em resposta humana. No entanto não pensemos que somos mais do que os outros, porque os últimos serão os primeiros (cf. Mt 20,16). O que existe é a diferença no acolhimento e na predisposição para o “SIM”, como tão bem nos é apresentado no Quarto Evangelho em relação ao discípulo amado.

“Corriam os dois juntos, mas o discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer...”
(Jo 20,8)

A beleza reside nesta singularidade humana, neste o valor humano, neste incontestável valor da vida...


 
“Na humanidade de Jesus se mostra a santíssima divindade de Cristo”
(S. Inácio de Loyola)



Hoje num mundo tão imediatista, em que toda a informação circula em pouco tempo, torna-se necessário parar e tomar a consciência de que temos um Deus que se fez próximo, um Deus que se dá todos os dias em amor, um Deus que é Ele mesmo amor (cf. 1 Jo 4,16), e que só em amor O podemos compreender e estabelecer com Ele um caminho para a o Seu Reino. Um Deus que se fez homem e através de Jesus Cristo reconhecemos o próprio Deus.
Esta consciência de que somos de Cristo e que Cristo é de Deus, em si mesma a naturalidade da nossa filiação a Deus. O alimento de Deus é a Salvação de todos, e a Salvação de todos liga-se profundamente com a realização plena de cada ser humano.

Meus irmãos:
Por mais que nos esforcemos jamais poderemos determinar a natureza (amorosa) de Deus, apenas sabemos que é amor e que no amor permanece e que no amor se revela.

“Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora, permanecem três coisas:
A fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.”
(1 Cor 13,12-13)

A transcendência surge sempre a partir do amor de Deus, naquilo que é capaz de realizar e está além das nossas capacidade, mas embora seja inexplicável é plenamente sentido, porque O tocamos todos os dias.


 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Notícia (Lusa) : Papa Francisco diz que os bons católicos não devem procriar "como coelhos"

Papa Francisco diz que os bons católicos não devem procriar "como coelhos"


Roma, 19 jan (Lusa) 

O papa Francisco apelou hoje à paternidade responsável e disse que os bons católicos não devem procriar “como coelhos".

Francisco declarou partilhar a doutrina da Igreja contra a contraceção artificial, mas isso não quer dizer que “os cristãos devam ter um filho atrás do outro”.

O líder da Igreja Católica, no voo de regresso ao Vaticano depois da sua visita às Filipinas, referiu que certa vez perguntou a uma mãe de sete filhos – todos nascidos de cesariana - porque estava grávida do oitavo e se queria “deixar para trás sete crianças órfãs”.

“Eu acredito em Deus", respondeu a mulher, o que levou o papa a lembrar: "entretanto, Deus deu-nos meios para sermos responsáveis”.

“Alguns pensam, e desculpem o termo, que para serem bons católicos devem ser como coelhos”, referiu.

Francisco declarou que a criação de uma nova vida é “parte do sacramento do casamento” e, durante sua visita a Manila, já havia defendido fortemente a proibição do papa Paulo VI da contraceção artificial para os católicos, que ocorreu em 1968.

“Paulo VI estava preocupado com o crescimento do neomalthusianismo (defende a restrição do número de crianças pobres que pode haver), o qual tentou controlar a humanidade (…)”, disse.
“O ensinamento chave da Igreja é a responsabilidade parental. E como vamos conseguir isso?

Através do diálogo. Há grupos para o casamento na Igreja, especialistas e padres”, afirmou ainda.
O papa confirmou ainda a sua viagem à África, que passará pelo Uganda e pela República Centro-Africana, para o final do ano. A visita ao continente foi adiada devido ao surto de Ébola em alguns países africanos.

Francisco também referiu que irá visitar o Equador, a Bolívia e o Paraguai em julho.
CSR // JPS

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Início do Advento



Neste domingo um novo ano litúrgico deu início, e com ele o Advento.
Estamos num momento especial para todos os cristãos, celebramos a grandeza da encarnação do “logos”, o Deus que desceu a até nós e se fez homem, um homem igual a nós. Esta é a beleza do nosso Deus, um Deus quem vem ao nosso encontro, que nos interpelam e que exalta a beleza e a singularidade da vida.
Deus é amor, nada mais do que amor, O que O faz onipotente e omnipresente, não é um conceito deturpado de um Deus, em que este se apresenta com mão de ferro sedento de castigo; o Deus de Jesus apresenta-se sim em suavidade, verdade e promovendo a liberdade como valor fundamental para a vida.

O SIM de Maria Santíssima é o reflexo da certeza de Deus, uma SIM não imposto mas em liberdade, no entanto, e a partir desta certeza somos levados à ação, na ajuda permanente na realização obra salvífica de Deus.
Não esperemos que Deus “nos bata à porta” enquanto dormimos, antecipemo-nos para que a Sua chegada seja a confirmação, de nos fez agentes concretos na construção do Reino de Deus.

Muitos perguntam,
Onde está Deus,
Eu respondo:
“nos olhos cintilantes de um uma criança a olhar a beleza do mundo”