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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Culto II



 
O culto excede mesmo o acto litúrgico: “o homem será glorificação para Deus, colocando a luz, e vivendo num permanente olhar para Deus”. Quem excluir Deus da realidade fica num falso realismo, abstraindo-se enquanto pessoas. Só a partir de uma relação concreta com Deus é que poderemos realizar um verdadeiro convívio com o mundo inteiro. A lei é portanto virada para a liberdade e para a comunidade; a adoração é a correcta conduta perante Deus. A adoração é na realidade o modo correcto do culto e da relação com Deus.






Uma vida sem a busca de Deus fica prendida à futilidade. Foram precisamente os sistemas ateus e materialistas que criaram novas formas de culto que, sem dúvida, não passam de uma triste e lamentável ilusão.

O culto é demonstrado na própria acção de Jesus, Ele mesmo recolhia-se muitas vezes sozinho em busca da oração profunda. 


A própria Eucaristia é acima de tudo a grande acção de culto a Deus, daí que ao estarmos de “olhos bem abertos para a cruz", seja essencial em toda a liturgia eucarística. Ela é a expressão humana do contacto com o divino, em comunhão entre os vivos e os mortos numa junção de unidade em redor de Deus. O culto da liturgia visa Deus, visa agradar o Senhor nosso Deus. Daí que devemos sempre de abrir o coração, e dispormo-nos para uma dadiva total a Ele, se assim fizermos a liturgia eucarística ganha um significado singular e de perfeição única.
Deus é sempre o princípio e o fim da liturgia e do culto, é para Ele que existem e é nesta busca da verdade – que está no Senhor – que toda a liturgia ganha significado.





Nota-se que nas sociedades onde existe uma rejeição de qualquer culto divino, existe como que um culto terrestre, fazendo de certos homens quase “divindades”. Este processo retira o factor universal que existe ligado a Deus. Enquanto que a história apaga muitas vezes das memórias certas personagens, ou então, criam-se certos mitos falsos em seu redor, que em nada correspondem à realidade.
Deus que se mostrou e que se concretizou na sua palavra, eternizou-se no seu sentido para todos, claro que ainda temos muito para entender…, mas com a sua ligação impar ao homem, através de Jesus Cristo, Deus revelou-se como nunca.

Desta forma a liturgia também nos leva para algo de concreto e que se interliga com o percurso da nossa existência.

Voltando ao Êxodo no Antigo Testamento, notamos uma alerta bem firme para os malefícios de um culto egoísta e autocrático. Na passagem do “bezerro de ouro”, vemos algo que muitas vezes se passa também nos nossos dias; um culto que dispensa Deus, criado à medida dos nossos desejos. Esta forma de interpretação é também levada para o próprio Deus, tornando deste modo toda liturgia superficial e insignificante, já que existe um abono de Deus. Mesmo que respeitemos os tempos sacros, ao vermos Deus e a liturgia de uma forma egoísta a sua revelação no nosso coração nunca acontecerá e, no final, não nos fica nada a não ser um imenso vazio, porque a novidade e a manifestação divina nunca se realizará. Ao concebermos Deus segundo as nossas disponibilidades e aspirações, não receberemos nada de novo, e assim a própria liturgia não passará de um “conjunto de regras” pré-estabelecidas, mas sem nenhum significado relevante.

A liturgia ultrapassa este mundo e leva-nos ao encontro com a Trindade. Esta ligação é feita através do ponto essencial na busca de Deus, a Fé. Sem fé nunca encontraremos Deus, portanto a fé é também um elemento essencial para entendermos realmente todo significado da liturgia.

Repara-se pois, que nas religiões não-teístas, o culto é orientado para o cosmos. Ao nos debruçamos no Cristianismo ligado ao Antigo Testamento, notamos uma orientação pela história; já no Islão e no Judaísmo, a ideia de liturgia fica somente ligada à palavra.
Culto e cosmos são dois elementos que em muitas religiões estão intimamente ligados. Existe como que uma relação de dar e receber, ou seja, a sustentação do mundo feito pelos deuses é realizado em contrapartida com a capacidade dos homens responderem de uma forma concreta através do seu culto. Surge então a ideia que os homens foram criados “no círculo” dos deuses, tornando-se, também eles, membros fundamentais do “círculo” do universo. Isto pode levar a um perigo, já que pode dar-se o caso de existir uma inversão e mesmo a um abuso deste pensamento; ao acontecer este tipo de pensamento os deuses estão, como é óbvio, nas mãos do homem, eles necessitam do homem para a sua efectiva existência.


 
No Antigo Testamento o Sabbath apresenta um repouso divino por parte de Deus. O Sabbath aparece como uma visão concreta da liberdade; nesse dia o escravo e o senhor são iguais, no Sabbath há portanto o repouso, mas também o fim de todas as subordinações. Segundo a Tora, o Sabbath é o sinal da aliança entre Deus e os homens, ou seja, a própria finalidade da criação reside na Aliança. Esta será a conclusão da história de amor entre Deus e os homens. Ao orientarmos esta visão para o Novo Testamento, notamos que em Cristo existe a realização perfeita do Sabbath. A liberdade do homem só se atinge quando a aliança é feita com Deus. 





E em Cristo a Aliança é mesmo ultrapassada tornando-se Comunhão (“comunnio”). Portanto a grande adoração faz-se a partir desta compreensão entre a criação originária e a comunhão final entre Deus e o homem.  








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