O culto
excede mesmo o acto litúrgico: “o homem será glorificação para Deus, colocando
a luz, e vivendo num permanente olhar para Deus”. Quem excluir Deus da
realidade fica num falso realismo, abstraindo-se enquanto pessoas. Só a partir
de uma relação concreta com Deus é que poderemos realizar um verdadeiro
convívio com o mundo inteiro. A lei é portanto virada para a liberdade e para a
comunidade; a adoração é a correcta conduta perante Deus. A adoração é na
realidade o modo correcto do culto e da relação com Deus.
Uma
vida sem a busca de Deus fica prendida à futilidade. Foram precisamente os
sistemas ateus e materialistas que criaram novas formas de culto que, sem
dúvida, não passam de uma triste e lamentável ilusão.
O culto
é demonstrado na própria acção de Jesus, Ele mesmo recolhia-se muitas vezes
sozinho em busca da oração profunda.
A própria Eucaristia é acima de tudo a grande acção de culto a Deus,
daí que ao estarmos de “olhos bem abertos para a cruz", seja essencial em toda a
liturgia eucarística. Ela é a expressão humana do contacto com o divino, em
comunhão entre os vivos e os mortos numa junção de unidade em redor de Deus. O
culto da liturgia visa Deus, visa agradar o Senhor nosso Deus. Daí que devemos
sempre de abrir o coração, e dispormo-nos para uma dadiva total a Ele, se assim
fizermos a liturgia eucarística ganha um significado singular e de perfeição
única.
Deus é
sempre o princípio e o fim da liturgia e do culto, é para Ele que existem e é
nesta busca da verdade – que está no Senhor – que toda a liturgia ganha
significado.
Nota-se
que nas sociedades onde existe uma rejeição de qualquer culto divino, existe
como que um culto terrestre, fazendo de certos homens quase “divindades”. Este
processo retira o factor universal que existe ligado a Deus. Enquanto que a
história apaga muitas vezes das memórias certas personagens, ou então, criam-se
certos mitos falsos em seu redor, que em nada correspondem à realidade.
Deus
que se mostrou e que se concretizou na sua palavra, eternizou-se no seu sentido
para todos, claro que ainda temos muito para entender…, mas com a sua ligação
impar ao homem, através de Jesus Cristo, Deus revelou-se como nunca.
Desta
forma a liturgia também nos leva para algo de concreto e que se interliga com o
percurso da nossa existência.
Voltando
ao Êxodo no Antigo Testamento, notamos uma alerta bem firme para os malefícios
de um culto egoísta e autocrático. Na passagem do “bezerro de ouro”, vemos algo
que muitas vezes se passa também nos nossos dias; um culto que dispensa Deus,
criado à medida dos nossos desejos. Esta forma de interpretação é também levada
para o próprio Deus, tornando deste modo toda liturgia superficial e
insignificante, já que existe um abono de Deus. Mesmo que respeitemos os tempos
sacros, ao vermos Deus e a liturgia de uma forma egoísta a sua revelação no
nosso coração nunca acontecerá e, no final, não nos fica nada a não ser um
imenso vazio, porque a novidade e a manifestação divina nunca se realizará. Ao
concebermos Deus segundo as nossas disponibilidades e aspirações, não
receberemos nada de novo, e assim a própria liturgia não passará de um
“conjunto de regras” pré-estabelecidas, mas sem nenhum significado relevante.
A
liturgia ultrapassa este mundo e leva-nos ao encontro com a Trindade. Esta
ligação é feita através do ponto essencial na busca de Deus, a Fé. Sem fé nunca
encontraremos Deus, portanto a fé é também um elemento essencial para
entendermos realmente todo significado da liturgia.
Repara-se
pois, que nas religiões não-teístas, o culto é orientado para o cosmos. Ao nos
debruçamos no Cristianismo ligado ao Antigo Testamento, notamos uma orientação
pela história; já no Islão e no Judaísmo, a ideia de liturgia fica somente
ligada à palavra.
Culto e
cosmos são dois elementos que em muitas religiões estão intimamente ligados.
Existe como que uma relação de dar e receber, ou seja, a sustentação do mundo
feito pelos deuses é realizado em contrapartida com a capacidade dos homens
responderem de uma forma concreta através do seu culto. Surge então a ideia que
os homens foram criados “no círculo” dos deuses, tornando-se, também eles,
membros fundamentais do “círculo” do universo. Isto pode levar a um perigo, já
que pode dar-se o caso de existir uma inversão e mesmo a um abuso deste
pensamento; ao acontecer este tipo de pensamento os deuses estão, como é óbvio,
nas mãos do homem, eles necessitam do homem para a sua efectiva existência.
No
Antigo Testamento o Sabbath apresenta um repouso divino por parte de Deus. O
Sabbath aparece como uma visão concreta da liberdade; nesse dia o escravo e o senhor
são iguais, no Sabbath há portanto o repouso, mas também o fim de todas as
subordinações. Segundo a Tora, o Sabbath é o sinal da aliança entre Deus e os
homens, ou seja, a própria finalidade da criação reside na Aliança. Esta será a
conclusão da história de amor entre Deus e os homens. Ao orientarmos esta visão
para o Novo Testamento, notamos que em Cristo existe a realização perfeita do
Sabbath. A liberdade do homem só se atinge quando a aliança é feita com Deus.
E
em Cristo a Aliança é mesmo ultrapassada tornando-se Comunhão (“comunnio”). Portanto a grande adoração
faz-se a partir desta compreensão entre a criação originária e a comunhão final
entre Deus e o homem.


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