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sábado, 7 de junho de 2014

ESPÍRITO SANTO


Um dos temas que se prende de uma forma fundamental com o conceito cristológico tem a ver com o Espírito Santo. O Espírito Santo torna-se real a partir da forma concreta do ser humano tendo como referência principal a fé. Já que a própria fé faz uma ligação ao Espírito Santo.
Efectivamente o Espírito Santo, que para muitos está ligado a um sentido puramente oculto, é muito mais real e concreto do que parece à primeira vista. A fé consistente, fora de qualquer conceito de “cegueira”, leva a um encontro concreto com o Espírito Santo, deste modo Ele fará parte do nosso corpo enquanto seres humanos. Ele não é algo que nos está ausente, que nos é exterior e inatingível, Ele acontece na nossa atitude de fé perante a vida e perante a nossa condição humana. O ser humano ao ser “tocado” e reagindo de uma forma positiva e afirmativa (dizendo sim…) encontra-se com o Espírito Santo. Desta forma torna-se necessário reconhecê-lo, para tal temos de O ver Naquele que nos foi concedido: Jesus Cristo.

Evidentemente que este conceito não é fácil de aceitar, esta visão da amplitude do Espírito Santo, pode levar a que Ele seja visto como uma especulação da vida humana, uma fantasia desligada da realidade. Claro que esta análise do Espírito Santo presente e actuante nas nossas vidas é algo de difícil explicação, no entanto, é aqui que reside muito daquilo que sustenta a nossa crença e o nosso profundo amor a Cristo. É importante falar de uma forma aberta e sincera do Espírito Santo, ou seja, abordá-lo e analisá-lo não somente numa base meramente teórica. Esta análise deverá ter como base a realidade experimentada e interpretada no pensamento. Ela terá que ser bem reflectida e comprovada para que não exista uma confusão entre “espírito próprio” e “Espírito Santo”.
Este é um aspecto importante, temos de ter uma noção de que quando falamos por nossa própria conta, muitas vezes leva a que se entre em contradição com o Espírito Santo. O Espírito Santo, como refere S. João não toma o que é seu.

Este Espírito age na nossa pessoa com uma influência directa do Salvador. Daí que é importante olhar para a Igreja enquanto essência, fundada pelos apóstolos guiados pelo Senhor através da acção do Espírito Santo. Muitas vezes fazer uma análise puramente pessoal (sem ter esta noção bem presente), poderá levar a desvirtuamentos da essência do próprio culto. No entanto também é importante salientar que a Igreja, enquanto instituição, tem muitas vezes se esquecido esta importantíssima noção. A Igreja só estará no caminho correcto se tiver sempre na sua génese de acção e de pensamento a acção do Espírito Santo.
Infelizmente verificamos que há um alheamento deste Espírito redentor, daí que é dever dos católicos (sejam leigos ou religiosos) enquanto membros da Igreja, estarem atentos para que não se deixem apoderar pela tentação, o que infelizmente aconteceu várias vezes na sua história…

Nesta análise do Espírito Santo, é importante atentarmos na doutrina de S. Agostinho. A importância de S. Agostinho enquanto grande pensador do Cristianismo foi determinante principalmente para a Igreja Ocidental. 

Esta análise do Espírito Santo a partir do pensamento de S. Agostinho tem logo de início um problema, a sua actualidade. No entanto S. Agostinho foi talvez das figuras da Igreja que mais se debruçou acerca desta questão fundamental do Cristianismo. Ele, ao contrário do que se poderá pensar, bateu-se por uma objectividade chegando mesmo a afirmar que aqui a originalidade é precisamente o que é discutível. A objectividade da questão insere-se na fé comum da Igreja, este é o ponto em que assenta toda a confiança.

Como diz o evangelista João “Deus é Espírito” (Jo. 2, 24), logo aquilo que define Deus é necessariamente ser Espírito e ser Santo, aqui reside verdadeiramente a essência de Deus, e expressão verdadeira do Espírito Santo.

Vejamos então: se o Espírito Santo designa o que Deus tem de mais divino, e se existe uma correlação existencial entre Pai e Filho, o Espírito Santo é na realidade a essência primordial da verdadeira união entre Pai e Filho – “ser communio do Pai e do Filho”. Na realidade o Espírito Santo é comum ao Pai e ao Filho, a sua expressão reside precisamente nesta correlação entre os dois, deste modo, a grande especificidade do Espírito Santo é de ser a unidade de Deus que é Pai, e que é o Filho que por sua vez é a expressão de Deus entre os homens. Ambos têm o mesmo Espírito, estão unidos por Ele e com Ele. É assente nesta noção que afirmamos que “Jesus Cristo é Deus na Terra, é Deus encarnado, feito homem como nós”.
É com o entendimento desta noção que deciframos claramente as palavras de S. Paulo ao referir-se ao nosso corpo como templo do Espírito Santo (1 Cor. 6, 19) que actua em nós tanto individualmente como em comunidade, em Igreja.
O Espírito Santo actua em cada um para nos levar à unidade (communio). E ao levar transforma-nos em novos homens – “todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas…” (cf. Act. 2, 1-4)
A própria mediação de Pai e Filho para a unidade plena terá de ser entendida neste “communio”, de uma forma concreta, ou seja a partir das pessoas. A acção de Deus é feita primeiramente através de uma mediação pessoal, o Espírito Santo, que nos foi dado por Cristo, está presente entre os homens de uma forma real e concreta através da unidade verdadeira a Deus. A unidade se não tiver um carácter pessoal acabaria por eliminar o diálogo enquanto diálogo, a acção do Espírito Santo sobre nós não nos tira a liberdade, antes pelo contrário liberta-nos do efémero, e do inútil, já que nos leva a Deus. Na união nunca perderemos o nosso ser individual - a nossa singularidade -, a união assenta na comunhão entre nós e Deus, entre nós e a Verdade. Não é uma unidade a um pensamento ou ideologia, mas sim uma unidade em volta de Deus, e esta união é realizada a partir do Espírito Santo. O Espírito Santo é portanto a verdadeira unidade, personificada e identificada enquanto pessoa. Toda a doutrina da Igreja deverá apontar sempre para o Salvador, daí que a acção do Espírito Santo enquanto terceira entidade da Trindade é o intermediário para a unidade cristã, originada a partir do Amor eterno de Deus.

“O Espírito Santo é a unidade de Deus a Si mesmo, na qual e através do qual Pai e Filho se dão a Si mesmos um ao outro, tornando-se um no outro em Espírito e ao mesmo tempo Pessoa”.

Cristo na realidade é a própria personificação de Deus, personificando deste modo o próprio Espírito Santo, no entanto este Espírito não se fechou e esgotou Nele mesmo. Ele foi-nos dado, daí que a sua própria personificação pode também ser feita através de nós mesmos. Esta adesão é que torna Deus vivo em nós e no meio de nós; o Cristianismo não é apenas uma adesão espiritual, é também uma adesão corporal. Do mesmo modo que Cristo nos foi dado a nós mesmos, também nos foi dado o Espírito Santo, já que tudo converge para o “communio”, para a verdadeira unidade, concreta, real, feita pessoa.
A partir deste acontecimento, foi-nos dado, através Dele próprio, a capacidade de transformar algo de transcendente em algo de concreto, em algo que acontece, que se toca. Tal como Deus nos deu a tocar a Si mesmo através de Seu Filho, também nós poderemos sentir o toque do Espírito Santo, ou seja, o dom de Deus atinge-nos, mesmo que estejamos perdidos e desesperados Ele toca-nos; Ele está sempre bem perto, porque está dentro de nós…

Por conseguinte, e na visão de S. Agostinho, o “espiritual” tem de ter uma capacidade de unir e de comunicar. S. Agostinho conseguiu uma importante revisão do conceito de espírito enquanto tal. A partir da frase “Deus é Espírito” (Jo. 4, 24) não faz uma divisão entre espírito e matéria, mas sim entre Deus e o mundano: o contrário de espírito não se chamaria matéria, mas antes “este mundo”.
Para ele a dinâmica do espírito está ligada à acção Pai-Filho. A partir desta visão de “communio”, se pode começar a saber o que é Deus e Espírito Santo.

Para S. Agostinho “Espírito Santo” está ligado a “amor” (caritas) e “dom” (domus). Para ele o amor liga-se à própria Santíssima Trindade força vinculante à união. O Espírito Santo é o Amor que une a essência de Deus personificada no Filho, e que nos foi dado como “cordeiro de Deus que tira todo o pecado do mundo”, através do amor infinito que nos tem.

“O Espírito Santo, do qual Ele nos deu, faz-nos permanecer em Deus e Deus em nós, mas é no amor que isso opera. Ele próprio, o Espírito, é, portanto, Deus como Amor”.

“O grande dom de Deus é o Espírito Santo, e este tem a sua grande expressão no amor, assim comunica-se no Espírito Santo como amor.”

Claro que o amor supera tudo, no entanto estar aberto ao conhecimento em nada enfraquece o amor, antes pelo contrário, ele é fortificado e solidificado cada vez mais. O essencial do amor assenta no Espírito Santo, na sua capacidade de permanecer eterno.
O cristão deve ter esta noção bem presente, a sua fé é “alimentada” pelo dom que Deus nos deu através do Espírito Santo. Este assenta na sua maior expressão de amor, Jesus Cristo. A nossa aplicação do dom terá de ser feita através da nossa vida e na relação que temos com todos os que nos rodeiam, já que todos “beberam da mesma água”.
Infelizmente para muitos amar o próximo como a nós mesmos “é uma loucura”, mas esta é a “bela loucura” da mensagem de Cristo, e sendo Ele Deus, sendo Ele a Verdade, a “loucura” passa a ser salvação e vida eterna. A assumir as nossas culpas na Paixão, Cristo levou ao extremo o seu amor por todos nós. Mas através do seu sofrimento venceu a morte e fez com que a sua agonia na cruz fosse símbolo da verdadeira vitória e esperança. A nossa realização e felicidade estão Nele. Termos uma vida realizada não está no estatuto social, nem na posse de grandes quantias de bens materiais; a realização completa está na capacidade de proporcionarmos ao próximo o bem-estar e dignidade material e espiritual que merece enquanto ser humano e filho de Deus, enfim, enquanto nosso irmão. É essencial olharmos para o próximo como para nós mesmos, porque Deus está presente no próximo. O próximo somos no fundo nós mesmos, e quem agrada ao próximo, agrada ao Senhor, e ser-lhe-á dada a recompensa, esta é uma Verdade Absoluta.
A fé só por si não é garantia de salvação, a certeza contida na fé, só tem um sentido de salvação se tiver uma manifestação interna e externa perante Deus, e esta faz-se na nossa acção perante o mundo. A acção do Espírito Santo dentro de nós é peça fundamental para atingirmos a glória junto de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Afinal quem já não se sentiu bem consigo mesmo ao ajudar o próximo?

Tenho a certeza que todos nós sabemos o caminho, no entanto este pode levar a certas abdicações que não somos capazes de abandonar… No entanto esta é a grande mentira que nos acompanha, senão vejamos: afinal o que é que abdicamos se realmente ganhamos o amor dos outros? Afinal não somos todos iguais aos olhos do Senhor? Não somos também nós os próximos?
Por isso não existe abdicação mas sim ganho. Este encontro com o próximo, é o encontro com a Verdade, com Vida, e com o Caminho, já que este é o encontro com Deus. Existe maior felicidade do que estarmos na glória do Senhor?
Poderão considerar-me que sou um utópico, então que seja…
Amar Jesus é amar a verdade acima de todas as coisas, ama-Lo é, portanto, amar tudo o que nos rodeia (mesmo aqueles que se apresentem como nossos inimigos), ama-Lo é amar o todo, ama-Lo é amar o Universo, ama-Lo é amar a Deus, porque Ele é Deus. Tirar esta noção da nossa vida é a torna-la efémera, a vida deixa de ter um sentido pleno, torna-se um acumular de sensações passageiras, sem significado profundo. Sem amar a Deus, é impossível amar o próximo.
É pois perante esta realidade que podemos criar uma verdadeira comunidade. O equilíbrio e a busca pela perfeição comunitária só se atinge através do amor de uns pelos outros. Desta forma assumimos plenamente a responsabilidade perante todos, numa acção de elevação espiritual através da acção de Deus em cada um.

O amor verdadeiro terá pois de existir de uma forma permanente e constante, “a obra principal do Espírito Santo” está exactamente no amor unificador em sentido eterno.
Hoje fala-se muito que o “amor não é eterno”, no entanto, para nós cristãos o amor a Deus tem de ser permanente, mesmo nos momentos mais difíceis o amor terá sempre de estar presente. Deus na sua eternidade ama-nos de uma forma tão profunda, que concedeu-nos o Seu Filho, daí que, embora o mistério de Deus seja na sua plenitude inalcançável para a nossa consciência, podemos no entanto ter a certeza num aspecto: só no amor O encontraremos na sua glória eterna, e atingiremos a vitória sobre todas as coisas, até mesmo em relação à morte. Como referiu S. Anselmo: “Deus situa-se além das capacidades humanas, Deus está além do pensamento – do pensável”. Daí que na confiança da razão (em que a fé se apoia) teremos de colocar a nossa vida, sempre dispostos a aceitar os desígnios que Deus nos concede. Segundo esta atitude perante o Senhor S. Anselmo declarou: “Prefiro estar em desacordo com os homens que, de acordo com eles, estar em desacordo com Deus”. Este permanecer em Deus é estar com a verdade, com a razão tendo sempre o amor (caridade) como linha central que sustenta a nossa existência.

Amar verdadeiramente é o sentimento mais belo que nos foi dado, dai que não percam a coragem de se amarem uns aos outros, só assim seremos justos para com o próximo, a caridade na vida é sabermos estarmos numa ligação entre o mundo e o divino, o dom que Deus nos deu é como referia S. Agostinho “Ele próprio”. A vitória não está nas armas, nem no poderio económico, ela está na nossa capacidade de amar, e de amar constantemente, porque através deste amor verdadeiro sem hipocrisias nem sentimentalismos estaremos com Deus, fazendo da nossa vida um banquete, uma vida “em abundância” (cf. Jo. 10, 10)

Pneumatologia e espiritualidade estão assim conjugados a partir desta visão e análise de S. Agostinho. Estas realidades são não só estruturantes para o homem como também para a própria Igreja. Ela inspirada pelo “sopro” divino de Deus deverá espelhar nele a sua acção em todas as suas vertentes.
É importante referir que a latinidade católica tem fundamentos essências ligados a S. Agostinho. Os nossos irmãos ortodoxos olham para esta acção de uma forma um pouco distinta. Eles evitam denominar o termo “pneuma”, segundo a sua doutrina “pneuma” é o próprio Espírito Santo. Desta forma é o “nous” que se liga com a presença activa do Espírito em nós. Podemos concluir, de uma forma simplificada, que na ortodoxia o “nous” é a acção do Espírito de Deus no nosso interior, sendo que este interage com o corpo e com a alma.



Este amor constante está também ligado ao conceito de união.

“O pneuma não está onde se fala em nome próprio, onde se busca a glória própria e solitária, é que desta forma, como é óbvio, cria-se facções. O verdadeiro Espírito manifesta-se precisamente no recordar e no unir.”

Para S. Agostinho a palavra “amor”, que vem na Sagrada Escritura, tem um significado bem específico: Espírito Santo. Desta forma por um lado, o “amor é Deus”, por outro lado, “vem de Deus”, e juntando o alcance de Deus: “Deus” é “vindo de Deus” isto significa que aquilo que conhecemos por “Deus de Deus”, quer dizer  Deus é a Verdade e a Vida: Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro.
“Deus de Deus” é a força que leva ao nascimento do novo homem a partir da acção do Espírito, que está inserida na caridade.

Este dom do Espírito Santo é visto por S. Agostinho nitidamente na conversa de Jesus com a Samaritana (cf. Jo. 4, 7-14), em que Ele através da água se revela com dador da “Água Viva”. Para S. Agostinho Cristo é a fonte de “Água Viva”, existe portanto uma verdadeira relação entre Cristologia e Pneumatologia. Assim cada Cristão, através d´Ele, também se pode tornar fonte de Espírito.
S. Agostinho acerca da relação entre Deus e Cristo conclui:
“Ele não vem de Deus como nascido, mas sim como doado” (non quomodo natur, sed quomod datus). “Não se chama Filho, porque nem nasceu como unigénito, nem foi “feito”… como nós” (neque natus… neque factus). Deste modo a procedência de Deus aparece da seguinte forma: nascido, doado, feito (natus, datus, factus).

Se a essência do Filho é visto como “gerar”, a essência do Espírito Santo está no “doar”. Deus é-nos concedido como um dom, é a partir deste dom que encontramos a salvação. No entanto também nós somos chamados a sermos levados nos seus braços para a salvação. O dom de Deus é portanto (e como referi atrás) o próprio Deus, daí Ele ser o verdadeiro conteúdo da oração cristã. A oração correcta não deve implorar uma coisa qualquer, ela deve implorar para que o verdadeiro dom de Deus se manifeste na essência que é Ele próprio. Para S. Agostinho isto está bem demonstrado no “Pai-Nosso” quando dizemos “o pão-nosso de cada dia nos dai hoje”, Deus é portanto o “nosso pão”, mas este “nosso” está posto como doado a nós, tal como o Espírito Santo e mesmo o próprio Jesus Cristo. A Santíssima Trindade é a expressão da doação total de Deus, através do Dele - que também nos foi doado - conseguimos alcançar e entender o Amor permanente e eterno de Deus por nós.

“O amor (caritas), é que faz a separação entre a esquerda e a direita (cf. Mt. 25).
O que ama está à direita, o que não ama está remetido para a esquerda. Sem amor nada “de bom” é realmente bom.”

Para S. Agostinho esta visão está assente de forma nítida em Paulo e Tiago. Eles são uma referência essencial da fé operante no amor, para S. Tiago a fé tem mesmo a capacidade de salvação, mas esta terá de ser inspirada pelo Espírito, porque a fé que é própria até dos demónios, mas esta que não pode salvar (cf. Tg. 2, 19). A fé pode até existir mas não salva só por si, só através do amor posto na fé (acção do Espírito Santo) é que alcançaremos a verdadeira salvação.

Esta é sem dúvida uma conclusão importante e valida, não basta acreditar para que a acção de Deus se concretize, sem a acção do dom do amor, através do Espírito Santo a transcendência não se manifesta. Não basta “dizermos” que acreditamos em Cristo, é necessário que este acreditar seja causa de adesão. Só desta forma a fé leva a que sejamos contemplados pelas maravilhas do Senhor, no entanto para encontramos o caminho na sua direcção muitas vezes implica renúncia de estilos de vida às quais abraçamos como as “mais correctas”, e isto leva a que nos falte a coragem, ficando o derradeiro passo sempre por dar.
Ao lermos o Evangelho (e como já se abordou atrás) notamos que o próprio demónio conhece bem quem é Jesus, daí que não basta sabermos quem é Jesus para que Ele viva em nós. Para que tal aconteça temos de ter uma atitude firme no amor para com Ele. A sede por Deus, é a sede do Amor, é no fundo estarmos sempre de coração aberto para recebê-lo, e esta atitude é revelada através da relação que temos perante os outros.

Jesus que é Deus deu a vida por nós, como acto mais supremo de amor, nós estamos hoje aptos para dar o quê aos nossos irmãos?

É nesta “caritas” que se vê o cristão, e a partir deste ponto que se liga os sacramentos a doutrina (Eclesiologia) à Pneumatologia.
Foi pois com base nisto que se levantou o confronto de S. Agostinho com o donatismo. Para ele os donatistas, que tinham os mesmos sacramentos que a Igreja Católica, falharam. Para S. Agostinho os donatistas quebraram o amor, e sem amor nunca se atinge a verdadeira salvação. A ideia de perfeição do donatismo eleva-se à própria unidade, renunciando desta forma ao próprio amor. Para S. Agostinho a Igreja é Caritas. A essência da Igreja deverá ser sempre conduzida pela fé, e esta fé terá de estar sob o comando do amor. Como tal e analisando de uma forma mais profunda esta noção, o amor não se insere em descriminar, o amor está contido no unir (communio).

”Enquanto criatura espiritual, enquanto corpo do Senhor edificado pelo “Pneuma”, que se torna corpo de Cristo, já que o “Pneuma” torna os homens capazes do “communio”, assim enquanto criatura do Espírito, a Igreja é o “dom” de Deus neste mundo, e este “dom” é amor”.

Um cristão nunca poderá ser visto como pertencer a uma seita separada dos outros. O Cristão tem de estar sempre ligado a todos (crentes e não crentes), com o objectivo de levar a todos a Pascoa do Senhor. Esta ligação à comunidade inteira terá de estar suportada na humildade e amor – temos de ser suporte e esperança para todos que buscam o sentido para as suas vidas – pois caso contrário ficará em falta o Espírito Santo, que é quem unifica. Nós cristãos temos pois a obrigação de juntarmo-nos na verdadeira comunidade dos crentes. Desta forma a afirmação “A Igreja é Caridade” não fica confinada a um âmbito puramente dogmático-académico, mas remete para o dinamismo que edifica a unidade que se demonstra na coesão mútua da Igreja. Desta forma para S. Agostinho, o cisma é uma heresia pneumatológica, já que confronta o princípio existencial. Esta virtude no pensamento de S. Agostinho, teve na sua execução um carácter extremo, que mais tarde abordarei, no entanto a essência do pensamento é fascinante e revestido de uma importância impar para todo o pensamento do Cristianismo. A noção de amor que S. Agostinho tem acerca da missão da Igreja, é algo que não se pode perder, o amor é a pedra basilar para a Salvação do mundo, sem ele nada é possível.
É importante salientar o seguinte, para S. Agostinho e também na linha do meu pensamento pessoal, a caridade não está automaticamente ligada àqueles que permanecem à Igreja, aliás esta noção é bem visível, o facto de se dizer que se pertence à Igreja não significa que se esteja, à partida, imbuídos pelo dom da caridade, a única certeza que podemos ter é que ao afastarmo-nos da Igreja, afastamo-nos também do sentido profundo da caridade. Através da Igreja temos uma via, que se utilizada no interior do ser humano, somos tocados pela caridade: “quanto mais a pessoa é da Igreja, tanto mais tem o Espírito Santo”. O sentido do Cristianismo está presente nesta denominação do espírito como amor, aliás é aqui que assenta todo o significado da Trindade, ou seja, o sentido de união acontece no amor – caridade.
Devido às divergências entre a Igreja Católica e o donatismo, levou a que passassem de pontos de vista diferentes ao nível verbal e conceptual, para a prática de actos violentos. No início houve por parte dos donatistas uma acção de grande violência contra a Igreja Católica, esta em resposta, agiu também com violência. Para muitos aqui se lançaram os primeiros passos para uma inquisição dura por parte da Igreja Católica…

Esta ligação da Igreja e amor, por mais profunda e compreensível que seja, acarreta também os seus perigos. Esta visão, se deturpada, poderá levar a restrições perigosas. A Igreja vista como amor para ter uma expressão de verdade e de ligação a Jesus Cristo, nunca poderá desligar-se do Espírito, esta ligação terá estar presente não só enquanto existência concreta para os féis, como na sua vertente institucional.


Irmãos, não basta afirmarmos que a Igreja é Amor, ela tem de o ser na sua verdadeira forma, ou seja, através do Espírito Santo. O próprio S. Agostinho para concretizar esta noção, levou a pactuar com algumas práticas perigosas, que iram marcar a história da Igreja da Idade Média e da Idade Moderna.
Como já referi atrás, no final deste capítulo vou procurar aprofundar um pouco mais a vida e pensamento de S. Agostinho, no entanto gostaria de referir o seguinte: S. Agostinho é uma das figuras mais importantes na formação do pensamento cristão, a sua acção foi, e é ainda hoje, uma grande referência inspiradora para toda a Igreja, e também fonte de inspiração e força orientadora do meu pensamento, no entanto, e na linha de grandes pensadores do Cristianismo, com o passar dos anos as suas ideias tornaram-se mais radicais, caindo por vezes numa certa contradição com a essência belíssima do seu pensamento. Infelizmente não poderemos esquecer que ele com a sua posição mais radical, levou a que nunca se opusesse a uma inquisição violenta, chegando mesmo a entendê-la e em certa medida a apoiá-la. Devemos pois estar bem atentos quando abordamos a ligação entre o homem e o divino, o risco entre o bem e o mal fica muitas vezes confinado um “traço fino”, em que o calcamos sem termos de imediato uma percepção concreta desta acção. Muitas vezes julgamos que estamos a actuar segundo a Palavra do Senhor, mas se reflectirmos com atenção, estamos a impor regras e preconceitos que desvirtuam a essência da Palavra, chegando mesmo a contradizê-la, ou a tirarmos conclusões que efectivamente não existem no Evangelho… Isto é um dos grandes perigos, e que para os quais teremos todos de estar atentos. É importante denunciar sempre que tal aconteça, esta é uma obrigação de todos os crentes perante a Igreja e perante a Verdade. É neste ponto em que a comunidade cristã leiga poderá dar um contributo importante à Igreja.

Só no Amor é que o Senhor se revela como Verdade e Vida. Para aqueles que duvidam e que chegam mesmo a por à prova a acção de Deus, alegando para isso as tragédias que acontecem à humanidade fica esta pequena reflexão:

Deus não é o responsável dos males que os homens comentem entre si. Jesus Cristo manifestou como grande ensinamento: o respeito que deveremos ter pelo próximo é igual ou maior àquele que damos a nós mesmos. A sua existência não assenta na nossa posição de o pormos à prova, mas sim na nossa postura de o seguirmos em fidelidade e amor, para deste modo alcançar a glória. Ninguém conhece Deus de uma forma completa e total, no entanto sem caridade, nunca mas mesmo nunca chegaremos a Ele, portanto se aderirmos de coração aberto à proposta de Deus seremos tocados pela sua divindade, e em comunhão com todos em Jesus Cristo encontraremos o caminho rumo à Vida Eterna. Só poderemos entender Deus se entendermos Jesus, Ele que é a presença do Verbo feito carne, é também o caminho da razão e da salvação. Ele que é Deus feito homem, indica-nos como alcançar a salvação, segui-Lo é entendê-Lo, segui-Lo é no fundo estarmos no caminho do encontro com a essência primeira e última de todos as coisas. Desta forma o progresso científico, só tem ligado a si o desenvolvimento se tiver como foco o homem em toda a sua totalidade. Daí que sem caridade nada se alcança, só na caridade estaremos no caminho da verdade, que se expressa no próprio Deus.

Claro que ao concluir o sentido da Igreja enquanto instrumento do amor (caridade) e salvadora, com isto não estou a afirmar que ela não tenha um caminho bem definido, mas por outro também não me estou a referir a uma Igreja que “não olhe para os lados” e que com isto se torne instrumento de intolerância. O intolerante torna-se intolerável, e isso fará com que se desvie na essência da caridade comandada pelo Espírito Santo e que lhe foi concedida como dom através de Jesus Cristo. Tendo os “olhos” sempre focados em Jesus, a Igreja estará sempre no caminho correcto, porque só através Dele a salvação e a verdade estará ao alcance do homem. É assim que a Igreja deverá ser sempre…
A Igreja terá de ter uma consciência que não se pode fechar no empirismo, ela que administra os sacramentos e transmite a Palavra de Deus nunca poderá dividir-se entre “Igreja de Espírito” e “Igreja instituição”.
Daí que para S. Agostinho a busca do Espírito não poderá ser realizada a partir do exterior, para ele ao fazer-se isto fica-se sem entender a obra da Pneuma: o amor que une para o permanecer. O grande mistério cristológico liga-se à noção que Cristo não é somente Aquele que ascende, mas é também Aquele que desceu. Ele portanto está simultaneamente ao lado de Deus (que nos dá), e ao nosso lado (que recebemos). Desta forma voltamos à Eclesiologia e à Cristologia: A Igreja está ligada a Cristo como Aquele que desceu, ou seja, Ela deverá ser sempre a continuação da humanidade de Jesus Cristo.

“Em todos os dons, é dado o dom – Espírito Santo”.
Claro que com esta afirmação S. Agostinho que referir que este dom está ligado sempre a Jesus Cristo (demonstrado na Santíssima Trindade), portanto a meta final de todos os dons chama-se: “Unidade”. Esta unidade deverá ter um carácter constante e persistente, e a Igreja deverá ser o espelho concreto desta união. Na sua eterna unidade com Deus, Jesus Cristo deu-nos o dom do Espírito Santo, portanto o dom é também o próprio Jesus Cristo, a Trindade tem na realidade esta forma de dom – Deus, Jesus e Espírito Santo. É neste permanecer na unidade do amor, que através do Espírito Santo somos libertados.
Para S. Agostinho, o cativeiro aprisionado, que antes impedia a construção, é o diabo, ou seja, o diabo é o cativeiro, o exílio, o ser retirado de si mesmo, aquele que se encontra no vazio, sem pátria – é exactamente nesta aparente liberdade que estamos verdadeiramente exilados e presos. S. Agostinho nesta conclusão, não se apoia apenas numa teoria dogmática ou filosófica, mas também a partir da sua experiencia concreta de vida pessoal.
A vitória está portanto no “regresso a casa” (Lc. 15, 11-32), edificando-a e tornando-a “Igreja”. A liberdade tem aqui um sentido espiritual, que poderá colidir com o sentido actual. A liberdade aqui está em tornar-se parte da casa, em ser-se inserido na sua construção. Claro que temos aqui de ter uma noção que o conceito antigo de liberdade estava ligado ao sentido de quem tem pátria é livre. No entanto ele supera este conceito social de liberdade a partir da fé cristã: “a liberdade está numa relação indissolúvel com a Verdade, que é a verdadeira pátria do homem”.

A Verdade é a Liberdade, e só através de Deus atingiremos a Verdade que nos Liberta.

Claro que poderemos confundir aqui fidelidade com Espírito. S. Agostinho chegou a grandes conclusões, no entanto a sua doutrina só por si não leva a uma conclusão final no que diz respeito a uma espiritualidade total do Cristianismo. Ele levantou as bases para o futuro da Igreja, e foi um dos maiores interpretadores da Bíblia. Este homem foi mais longe do que qualquer outro, e mesmo hoje, se quisermos analisar o dom de Deus e o sentido primordial da Igreja nunca poderemos fazê-lo sem recorremos a este “doutor da Igreja”, aclamado por Católicos e Protestantes.

 
A Igreja para ter um verdadeiro significado de salvação, não poderá estar divida. Esta divisão vem em discordância com a pretensão unificadora de Jesus Cristo. Os próprios apóstolos tiveram no início certos conflitos que poderiam originar rupturas, no entanto foi no primeiro concílio de Jerusalém (Act. 5, 2) que Pedro, João, Tiago e Paulo viram que só através de uma união (“communio”) a doutrina de Jesus teria um sentido profundo e marcante nas comunidades.


A Igreja tem de estar sempre atenta ao mundo actual, e basear a sua resposta sempre a partir da acção do Espírito que na verdade se baseia no amor salvador do dom de Deus. Como a Igreja faz parte deste todo, também deverá “carregar a ovelha perdida” (cf. Lc. 15, 4-7) e leva-la para casa. Amar é, antes de mais, saber amar, ou seja, agir na caridade, não excluir, não fugir dos desafios, não se ficar apenas pela palavra, a Igreja terá de ser capaz cada vez mais de amar a todos, porque ela é misericórdia, e terá pois de acolher sempre mais um no seu “banquete”. Ela terá de ter um “coração” de mãe, porque só num coração de mãe cabe sempre mais um, porque só um coração de mãe é capaz responder a uma falta com o perdão e amor. Tal como referiu o Papa João Paulo II na Encíclica – “Mulieris Dignitatem” - : “… a presença especial da Mãe de Deus no mistério da Igreja, nos consente pensar no vínculo excepcional entre esta “mulher” e toda a família humana”.
Só nesta atitude é que a Igreja tocará sempre em mais corações, tornando-se cada vez mais uma acção concreta e real de Jesus Cristo na Terra.
Quem deverá julgar não é a Igreja mas sim Deus, a função da Igreja deverá ser sempre a de acolher em misericórdia e amor, porque Deus estará no fim presente para fazer a “divisão entre do trigo e o joio” (cf. Mt. 13, 24-30). Com isto não estou a referir-me a uma Igreja “cega”, antes pelo contrário, a Igreja terá de estar de olhos bem abertos para a verdade, deverá denunciar a injustiças e ter a coragem por lutar sempre para o bem comum. A sua função é bater-se para que todos sejam o “trigo”, em unidade com Deus, Cristo e Espírito Santo. O sofrimento dos homens terá de ser para a Igreja motivo também de sofrimento, mas ao mesmo tempo de união e coragem para agir. A sua principal missão terá de ser virada para uma acção em relação àqueles que mais sofrem.
Irmãos a Verdade que está em Jesus Cristo, remete-nos sempre para o bem comum – e este deverá ser sempre o primordial objectivo da Igreja -, lutar pela dignificação do ser humano em todas as suas vertentes, mas não só de alguns homens, mas de todos os homens, crentes e não crentes, só deste modo se concretiza a vontade do Senhor. A divindade de Deus é em favor dos homens, de todos os homens, e ao mesmo tempo de toda a Terra. A “consciência ecológica”, hoje tanto em voga, é também, obviamente, uma vontade de Deus.

Para quê que me interessa uma “verdade restrita” (só para alguns predestinados)?

A verdade para ser útil tem de estar ao alcance de todos, só desta forma torna-se razão (“logos”). Quando dizemos que não existem primeiros nem últimos, queremos também dizer que o que existem são homens com o mesmo grau de importância ao “olhos” de Deus. Aqueles que nas nossas cidades dormem nas ruas (e infelizmente cada vez mais em maior número) na mais profunda pobreza, deverão ser a nossa vergonha, a vergonha de um mundo ocidental “moderno”, mas que no entanto o tal progresso não teve também uma medida humanitária que se impunha. Quando sofre um homem, sofre o Senhor, foi isso que Ele sempre nos disse.
Quando digo que a fé não é razão única e singular para a salvação, o que quero frisar é que não basta “ser muito crente”, sem existir uma prática concreta, “ser crente” apenas na palavra não é mais do que hipocrisia, a fé só tem razão de ser se tiver uma acção em caridade, em que o Espírito Santo se manifeste como dom de vida em Cristo. É assim que a fé ganha sentido, agir na verdade, sem medo nem arranjando “desculpas” circunstanciais.
Foi esta coragem que tiveram as primeiras comunidades cristãs. S. Estêvão o primeiro mártir do Cristianismo, morreu quando falou com coragem acerca do fim da Antiga Aliança operada pela redenção de Cristo, mas fê-lo sem receio porque a sua fé concretizou-se em acção concreta. Claro que o exemplo de Estêvão é um exemplo extremo, no entanto serve de modelo para os dias de hoje, em que, no mundo ocidental, uma atitude concreta a partir da Palavra do Senhor não nos levará ao martírio, no entanto passamos os dias a lamentarmos as injustiças, os escândalos, a pobreza, a miséria, mas de concreto nada fazemos para alterar a situação, pior ainda pactuamos com ela, escondidos atrás de uma capa mentirosa de “impotência”, mas, na mais profunda hipocrisia, vamos à eucaristia todos os domingos como grandes crentes, mas no entanto durante a semana Deus fica na “gaveta”, ou melhor só nos lembramos Dele quando estamos perante uma aflição. Afinal que cristãos somos nós na realidade?

Ser é estar com…, ser é amar o próximo, ser é caminharmos juntos em direcção a Deus em prefeita comunidade de paz, sem descriminações, contra qualquer tipo de intolerâncias, combatendo sempre pela Verdade e a justiça. Ser é estar em comunhão com Jesus Cristo fazendo da Sua palavra modo de vida. Eu acredito numa Igreja como comunidade aberta, não a modas nem a tendências em voga, mas aos homens vistos como filhos de Deus, buscando-os onde quer que eles estejam, sejam eles quem forem, não impondo uma religião mas mostrando um caminho em que através dele serão tocados pelo dom do Senhor e entenderão então o que é Igreja. Impor algo não faz parte do sentido profundo da palavra de Jesus, a imposição provoca resistência e intolerância e foi contra isto que Cristo mais lutou, e que pela sua morte por crucifixão demonstrou a condição mais degradante do ser humano, mas ao redimir os nossos pecados através do seu sangue, foi precisamente na sua paixão e morte que nos mostrou o seu infinito amor, na sua mais suprema glória.
Sem caridade nada mas mesmo nada se realiza…


“Sit laus Deo Patri, summo Christo decus, Spiritui Sancto tributos honor unus. Amen” (Gloria seja a Deus Pai, glória a Cristo Rei, e ao Espírito Santo, seja toda a Trindade a mesma honra. Amén)




terça-feira, 3 de junho de 2014

~ Soltas ~


Deus é o tremendo mistério do absoluto, do incondicional, do imprevisível. Embora a Sua presença se faça no nosso intimo, a Sua transcendência e imutabilidade dá-nos apenas a possibilidade de uma compreensão parcial. Esta está compreendida nas Suas ações intermediarias, mas no entanto, sempre profundamente marcantes e até mesmo reveladoras do Seu mistério. 
Um dos meus pensamentos recai na Sua capacidade em se adaptar às criaturas, que através do uso da razão, O procuram. Mas isto jamais me faz perder a noção da Sua imensidão, da Sua Santidade assente na eterna presença da Verdade presente no Amor Maior. É neste Deus que deve assentar a nossa adoração, realizada na capacidade reflexiva do silêncio. 
Deus não se prova num "tubo de ensaio", 
PARA A EXISTÊNCIA DE DEUS NÃO EXISTE "FORMULA RELIGIOSA" CAPAZ DE EXPLICAR A TOTALIDADE DO SEU MISTÉRIO.







terça-feira, 27 de maio de 2014

Papa Francisco - Homilia na Sala do Cenáculo Jerusalém


SANTA MISSA COM OS ORDINÁRIOS DA TERRA SANTA E COM O SÉQUITO PAPAL
HOMILIA DO SANTO PADRE

Sala do Cenáculo (Jerusalém)
Segunda-feira, 26 de Maio de 2014


É um grande dom que nos concede o Senhor, ao reunir-nos aqui, no Cenáculo, para celebrar a Eucaristia. Ao mesmo tempo que vos saúdo com fraterna alegria, penso afectuosamente nos Patriarcas Orientais Católicos que, nestes dias, tomaram parte na minha peregrinação. Desejo agradecer-lhes pela sua significativa presença, particularmente preciosa para mim, e asseguro que ocupam um lugar especial no meu coração e na minha oração. Aqui, onde Jesus comeu a Última Ceia com osApóstolos; onde, ressuscitado, apareceu no meio deles; onde o Espírito Santo desceu poderosamente sobre Maria e os discípulos, aqui nasceu a Igreja, e nasceu em saída. Daqui partiu, com o Pão repartido nas mãos, as chagas de Jesus nos olhos e o Espírito de amor no coração.
Jesus ressuscitado, enviado pelo Pai, no Cenáculo comunicou aos Apóstolos o seu próprio Espírito e, com a sua força, enviou-os a renovar a face  da terra (cf. Sal 104, 30).
Sair, partir, não quer dizer esquecer. A Igreja em saída guarda a memória daquilo que aconteceu aqui; o Espírito Paráclito recorda-lhe cada palavra, cada gesto, e revela o seu significado.
O Cenáculo recorda-nos o serviço, o lava-pés que Jesus realizou, como exemplo para os seus discípulos. Lavar os pés uns aos outros significa acolher-se, aceitar-se, amar-se, servir-se reciprocamente. Quer dizer servir o pobre, o doente, o marginalizado, a pessoa que me é antipática, aquela que me dá fastídio.
O Cenáculo recorda-nos, com a Eucaristia, o sacrifício. Em cada celebração eucarística, Jesus oferece-Se por nós ao Pai, para que também nós possamos unir-nos a Ele, oferecendo a Deus a nossa vida, o nosso trabalho, as nossas alegrias e as nossas penas..., oferecer tudo em sacrifício espiritual.
E o Cenáculo recorda-nos também a amizade. «Já não vos chamo servos – disse Jesus aos Doze – (…) mas a vós chamei-vos amigos» (Jo 15, 15). O Senhor faz de nós seus amigos, confia-nos a vontade do Pai e dá-Se-nos a Si mesmo. Esta é aexperiência mais bela do cristão e, de modo particular, do sacerdote: tornar-se amigo do Senhor Jesus, e descobrir no seu coração que Ele é amigo.
O Cenáculo recorda-nos a despedida do Mestre e a promessa de reencontrar-se com os seus amigos: «Quando Eu tiver ido (…), virei novamente e hei-de levar-vos para junto de Mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também» (Jo 14, 3). Jesus não nos deixa, nunca nos abandona, vai à nossa frente para a casa do Pai; e, para lá, nos quer levar consigo.
Mas, o Cenáculo recorda também a mesquinhez, a curiosidade – «quem é o traidor?» – a traição. E reproduzir na vida estas atitudes não sucede só nem sempre aos outros, mas pode suceder a cada um de nós, quando olhamos com desdém o irmão e o julgamos; quando, com os nossos pecados, atraiçoamos Jesus.
O Cenáculo recorda-nos a partilha, a fraternidade, a harmonia, a paz entre nós. Quanto amor, quanto bem jorrou do Cenáculo! Quanta caridade saiu daqui como um rio da sua fonte, que, ao princípio, é um ribeiro e depois se alarga e torna grande... Todos os santos beberam daqui; o grande rio da santidade da Igreja, sempre sem cessar, tem origem daqui, do Coração de Cristo, da Eucaristia, do seu Santo Espírito.
Finalmente, o Cenáculo recorda-nos o nascimento da nova família, a Igreja, a nossa santa mãe Igreja hierárquica, constituída por Jesus ressuscitado. Família esta, que tem uma Mãe, a Virgem Maria. As famílias cristãs pertencem a esta grande família e, nela, encontram luz e força para caminhar e se renovar no meio das fadigas e provações da vida.  Para esta grande família, estão convidados e chamados todos os filhos de Deus de cada povo e língua, todos irmãos e filhos do único Pai que está nos céus.
Este é o horizonte do Cenáculo: o horizonte do Ressuscitado e da Igreja.
Daqui parte a Igreja em saída, animada pelo sopro vital do Espírito. Reunida em oração com a Mãe de Jesus, ela sempre revive a espera de uma renovada efusão do Espírito Santo: Desça o vosso Espírito, Senhor, e renove a face da terra (cf. Sal 104, 30)!

(Fonte: Vaticano)



quarta-feira, 21 de maio de 2014

XXII Semana de Estudos Teológicos (Braga) - Beata Alexandrina de Balasar

XXII Semana de Estudos Teológicos 

Beata Alexandrina de Balasar


Teólogo Alexandre Duarte



 




- Soltas ~

Constantemente andamos envoltos com o superficial, enganados pela virtude duvidosa do tão apregoado pragmatismo, que ao extremar-se faz tudo para atingir um resultado pré-concebido, sendo que nem as vitimas humanas são razão necessária para a alteração do seu rumo. 
Olhemos para a compaixão, não como retórica dominical, mas enquanto dinamismo ativo e solidário. Sejamos agentes comprometidos com arealização plena da dignidade para todos (sem olhar para sexo, religião, etc.). Porque só na compaixão nos abrimos para a solidariedade fraterna, tornando-nos “um com os outros”, e não "eu e os outros".
Deixemo-nos de soberbas desmedidas, da busca de um sucesso meramente pessoal. Meus amigos não são os outros que constroem a nossa história, mas sim nós. Quem nos mostra que as alternativas não existem, mente... sempre, sempre há alternativas novas, formas renovadas de olhar o mundo.
Não deixemos o que é da nossa responsabilidade "nas mãos de Deus", mas sejamos, isso sim, as "mãos" Dele.
Pax.






sexta-feira, 16 de maio de 2014

DEUS SÁDICO?!

. a existência do mal, enquanto realidade antropológica ou religiosa.

. Deus responsável da tragédia, e Deus que em si mesmo “agrada-lhe” o sacrifício.


Podemos resumir: Deus sádico!


Poderei colocar de outro modo, como pode existir um Deus que não seja bom?

A opinião que vou dar é inteiramente pessoal, baseio-me na análise e na razão, vou também falar acerca do Cristianismo, e não de outras religiões, se bem que tem existido uma tentativa falhada de colocar tudo no mesmo “saco”, o que não está. Mesmo do ponto de vista filosófico todos deveremos refletir a moral com o cuidado que acarreta cada cultura, cada tempo, etc.


A.)  Sofrimento.

Quando o assunto é o sofrimento é necessário ter muito cuidado e acima de tudo muita humildade e sensatez. O sofrimento é mau, disso não pode jamais existir qualquer dúvida. O mal, nas suas diversas expressões, é desconcertante em toda a sua profundidade, chegando mesmo, em muitos casos, a escapar ao entendimento racional.
A maneira como hoje vivo a vida, como as coisas se vão maturando na consciência, a forma como vivo a fé, leva-me cada vez mais a compadecer com os outros, a olhar para a fé com a dor de todos os mal do mundo, e que muitas vezes são cometidos em nome do “mesmo” Deus em que acredito, no Deus que Jesus nos mostrou.

“Deus permitiu inconsistências na Bíblia, para nos mostrar que não nos devemos empenhar numa leitura literal da Escritura, mas que devemos procurar o seu significado mais profundo”.
Esta frase interessantíssima de Orígenes foi feita no séc. III, no entanto continua atual. Como se pode constatar este problema da literalidade na abordagem à Escritura não algo de novo tendo mesmo levado a que a teodiceia ganhasse forma. Esta disciplina aborda como reconciliar a existência do mal e do sofrimento no mundo com a fé num Deus bondoso e omnipotente. Obviamente que não pode fornecer respostas claras, no entanto o falhanço não está na teodiceia mas no “objeto” que analisa.
Mas surge também uma questão legítima,
será que o ateísmo dá as respostas certas, ou fica na especulação?

Será que não é mais fácil, perante a confrontação do mal e do sofrimento, chegarmos à conclusão que Deus não existe?

Nunca podemos esquecer que a teologia enquanto disciplina, não está confinada ao “dogma” da fé como tal, a teologia “vive da heresia”, necessita dela como opositora indispensável.

Perante o sofrimento, somos capazes das dissertações mais abrasadoras, todos gostamos de dar opiniões, mas antes de tudo em vez de arranjarmos teorias, temos que ter a humildade do silêncio. Eu não sei nada do que é o verdadeiro sofrimento, já contactei pessoas que atravessam pelo deserto da dor (que nem sempre é física), mas a palavra de pouco adianta. Fico completamente revoltado com algumas pregações acerca do sofrimento, que não cabem na cabeça de ninguém...

Imagina alguém que perdeu um filho criança com uma doença que a fez sofrer..., o que dizer a essa pessoa, “que deus assim quis, foi a sua vontade?!”, então que deus é este que se diz amor e que “quer” para satisfazer a sua “vontade”, a morte de uma criança. A dor humana, mesmo quando revestida da armadura do ateísmo militante, é algo que os cristãos devem tomar a sério e tratar com respeito, porque é “território sagrado”. Estar com quem sofre não é justificar o sofrimento, ou tentar justificar Deus perante o sofrimento, não é Deus que necessita de justificação, mas sim a quem sofre urge o alívio.

Muitos dos que vivem no sofrimento, querem por todas a vias ter a certeza da inexistência de Deus, porque se Ele existe faz dano. Para quem sofre deus é aquele que faz a vida enfadonha, mais complicada e mais pesada do que já é. Todos fazem a mesma pergunta, porquê eu? Porquê agora? Quando acabará?

Tive um amigo que foi atingido subitamente por um cancro fulminante, desde a descoberta da doença até à morte, esse meu amigo viveu pouco mais de dois meses numa completa decadência física e psicológica. Acreditava em Deus, no entanto não era cristão. Muitas vezes tentou arranjar justificações para o que lhe aconteceu, no entanto e com o passar do tempo, apenas ficou o silêncio. Ele não queria falar em nada apenas queria que eu estivesse ali presente... apenas a presença... já não havia lugar para palavras, discursos, dissertações, apenas a presença...
Daí que não vale a pena frases belas sobre o sofrimento, o importante é estar presente... a dor muda o temperamento, altera os pensamentos e as certezas da vida.

Uma outra forma de viver esta realidade (e atenção nada justifica o mal em si), estão em testemunhos que nos levam a uma dimensão em no interior do sofrimento, e através da fé em Jesus, é possível viver algo enormemente admirável. A tortura do sofrimento pessoal encontra-se com uma intimidade singular com Deus, e esta relação é absorvida pelo movimento, no qual o sofredor reúne a sua dor com a dor de todos, mesmo assim isto não tira jamais a constatação de que o sofrimento é mau. Etty Hillesum é um caso em que perante o horror e o sofrimento do holocausto, foi capaz de ter uma espiritualidade aterradora, de compaixão e amor a Deus.


São tempos de horror, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez, fiquei acordada no escuro, os olhos ardentes, imagens de sofrimento humano desfilando sem parar à minha frente. Oh, meu Deus, vou prometer-te uma coisa, uma ninharia: vou proteger-te hoje, de tantos fardos, das angústias que o futuro me inspira; mas isto requer um certo tempo. Por agora, cada dia vale a pena. Vou ajudar-te, meu Deus, a não desvaneceres em mim, mas não posso garanti-lo à partida. Agora contudo, me aparece mais claro: não és Tu quem pode ajudar-nos, mas somos nós que te podemos ajudar – e, ao faze-lo, ajudamo-nos a nós próprios. É tudo o que o que podemos salvar neste momento e é também a única coisa que conta: um pouco de Ti em nós, meu Deus. Talvez possamos nós contribuir-Te para Te divulgar junto dos corações martirizados dos outros”
 
Etty Hillesum morreu em Novembro de 1943, em Auschwitz, tinha 29 anos.





Daí que repita, é necessário muita sensatez ao abordar o sofrimento, principalmente fazendo-o ressoar no ambiente da crença. Cuidado tanto as divagações fáceis em relação ao sofrimento enquanto acontecimento. Assim como critico algum tipo de crença pouco esclarecida, não tenho duvidas em notar em muitos ateus, que implícita ou inconscientemente manifestam raciocínios pseudoteológicos, que mais não passam do que elaborações baseadas em noções de religiões primitivas. Mas isto fica ao critério e ao bom senso de cada um.


B.)  Deus não é sádico.

Agora ao entrar mais na concepção cristã, continuo a referir que estas opiniões são pessoais, no entanto baseadas na leitura e análise das Escrituras (tanto canónicas, deuterocanónicas, apócrifas).
O sofrimento não tem exclusões, todos somos sujeitos a ele, não há imunes, atinge a todos: crentes ou não crentes.

De um ponto de vista de análise teológica, a tentativa de “desculpar” Deus pode ser visto em três linhas:

1.     O sofrimento como castigo.
Deus enviaria um castigo quando “perde a paciência”. Deus em toda a história compreende, socorre, acolhe, espera, perdoa. No entanto chegará a um determinado momento que Deus determina (perante a postura humana) o envio do castigo, do sofrimento.
Podemos constatar esta forma (bizarra) de conceber Deus, ainda muito presente. Já todos conhecemos a expressão: “o que fiz eu para merecer isto?!”
Também no Evangelho esta procura do pecado para justificar o mal está presente, mostrando o seu enraizamento na comunidade da altura.

“Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: “Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?” Jesus respondeu: “Nem pecou ele, nem seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode atuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”
(Jo 9,1-5) mas também em paralelos sinóticos (Mt 9,27-31; 20,29-34; Mc 8,22-26; 10,46-52; Lc 18,35-43)


2.     O sofrimento como purificador.
Esta noção baseia-se na imagem de um Deus que nos segue muito de perto enviando-nos algo que “prove” a nossa fé. Um Deus que necessita de provas, e estas serão dadas num quase estoicismo perante o sofrimento.

3.     O sofrimento como crescimento da pessoa em busca do bem.
Está muito próximo do ponto 2., no entanto existe uma plena consciência pessoal que o crescimento da fé está num estilo que vida austero, em que o sofrimento (muitas vezes carnal) é a resposta à soteriologia. O sofrimento seria uma graça que Deus exerce sobretudo aos que mais o querem. Neste ponto gostaria de salientar o seguinte, nada tenho contra a vida ascética, nem a um exercício pneumatológico que exerça uma austeridade a quem o realiza. O que não consigo entender é a colocação do sofrimento nessa busca..., não há nenhuma razão teológica para tal. Uma coisa é a vida contemplativa, por si mais dura, outra é o exercício e a busca do sacrifício carnal como se este se apresentasse como uma graça. Sou um grande admirador de Teresa d´Ávila, como de João da Cruz e outros místicos fundamentais, respeito as suas opções mas não posso de deixar de ficar impressionado com alguns excessos por estes cometidos. O místico entende, melhor do que ninguém, o significado integral da entrega total de si a Deus. O sentido da sua existência que já aponta para uma dimensão que não esta, na sua elevação espiritual abre-se totalmente ao próprio mundo. Uma vida doada totalmente a Deus trás consigo renúncias, elevando a humildade total de si mesmo perante a magnitude e beleza infinita de Deus.
João da Cruz por exemplo, após a ordenação sacerdotal a sua vida tornou-se ainda mais reforçada na profunda oração e contemplação, “submergindo em Deus” ao qual juntou uma rigorosa mortificação. Fazia jejuns severos, assim como usou durante catorze anos, debaixo da túnica, um cíclicio, o que com o movimento corporal lhe esfolava a pele.
Mais uma vez reforço sou um grande apaixonado pelos místicos, no entanto (e respeitando-os), humildemente confesso que não me revejo neste tipo que ações. “O que o corpo perde, a alma ganha; o que o corpo ganha, a alma perde.” frase de  Cura D´Ars é colocada no sentido de entrega e de desapego, não no sentido de autoflagelação.


Colocando a minha verdade, aquilo que me faz viver a fé, não me revejo em nenhum dos três. De uma forma simples: se somos feitos à imagem e semelhança de Deus (Gn 5,1), sempre que amo alguém o que nunca farei é faze-lo sofrer.
Podem vir justificações de vários lados e de vários fundamentos, no entanto é um perigo falar de um deus como aquele que dispõe, provoca e permite o sofrimento. Como abordarei na última parte, mesmo de um ponto de vista estritamente evangélico, não foi este o Deus que Jesus apresentou, e que inspirou o Cristianismo.

No dia de hoje morrem pessoas em acidentes, em confrontos (como na Síria), a cada cinco segundos morre uma criança de fome...! Agora façamos o exercício em pensar num deus, que para sua satisfação, está a enviar um castigo para aqui, outro para a Síria, outro para o Canadá, do estilo mitológico em que o deus de tronco nu e de barbas envia os seus “raios”. Um deus que agora vai colocar-me à prova, daqui a uns minutos vai colocar uma pessoa na Baixa-da-Banheira... só para alimentar a sua glória! Sejamos sensatos, é este o Deus de Jesus?
Será este um Deus viável?
Foi baseado nisto que Jesus procurou os desfavorecidos, os excluídos, que pregou a paz, que não levantou um dedo contra ninguém?
Claro que não, mesmo os não crentes ao falarem de Jesus não o vêm com esta estratégia maquiavélica, pela simples razão que não a teve. Daí que quando se fala de Cristianismo e se vê um Deus justiceiro, sedento de sangue, não é o Deus de Jesus, como tal, não é o Deus cristão. Talvez alguns O queiram assim, mas não é.

Também para clarificar ainda mais o que se fala de Deus, o problema não está restrito a um (im)possível sadismo, o que jamais poderemos falar é que Deus anda a manipular a dor e o sofrimento para conseguir a sua glória, justiça e lei.

Infelizmente por trás de tudo está, claramente uma determinada visão do pecado, que se veio formando na linguagem da cultura cristã, realizada principalmente na baixa Idade Média, e que marcou o rumo do cristianismo, alterando-o mesmo para cristandade, em que o ponto da justificação da guerra (santa), era acima de tudo um Deus Justiceiro, no sentido cruel da palavra. Isto como sabemos levou a consequências práticas enormes, e que ainda se fazem sentir na sociedade.


C.)  Não é o sofrimento que agrada a Deus, mas o sofrimento existe.

A soteriologia, é insistentemente passada dando a “crer” que tudo assenta na imagem final que o sacrifício é redentor, olhando para cruz parte-se para a dor como redenção. A partir desta deturpação, entramos na viagem (extasy) da análise psicológica de Deus em que Ele é moldado ao nosso interesse, tanto para bem como para mal.
A revelação de Deus, está assente em Jesus..., todos podemos inventar um “cristo” que nos agrade e que justifique as nossas ações, agora o que já é difícil confrontarmo-nos com o Jesus da história.
A colocação de uma matriz sacrificial como ação premeditada de Deus, leva por um lado, a que a liberdade (que tanto falamos) não exista. Por outro abre-se a possibilidade para o absurdo , ou seja, a de um deus que faz preferências tanto de género como de outros aspectos, em deus não ame a todos da mesma forma.
Tantas vezes me questiono, afinal que deus é este em que “acreditamos”? 



Não há na realidade motivos teológicos para conceber um Deus desta forma, o sofrimento humano não tem para Deus nenhum valor compensatório nem reparador, nem constitui para Ele qualquer prazer, nem experiência jurídica.


A crucifixão, ponto central em toda esta problemática, tem em si mal entendidos que tentarei expor.





O escândalo da morte de Jesus (cf. 1 Cor 1,23) é ainda algo presente entre nós, custa-nos falar da morte de Jesus. Jesus (que é para nós encarnação de Deus), não morreu de forma biologicamente natural, Jesus foi executado, Deus foi executado.
O amor gratuito de Deus, ou se quisermos o amor imerecido de Deus, dado totalmente em Jesus, aquilo a que é chamado  o “amor louco de Deus”.
Reparemos que enquanto cristãos dizemos “morte do Senhor” e evitamos dizer “execução do Senhor”, falamos da cruz e evitamos falar em crucifixão, no entanto é precisamente isso que existe no calvário.
Jesus não busca cruzes, nunca foi sua intenção quer sofrer. A crucifixão não é um ato suicida de Jesus, neste acontecimento não há um sacrifício para satisfação do Pai, é pois necessário separa o que tem que ser separado.

Muitos entendem a morte de Jesus na cruz, como uma espécie de negociação entre Deus Pai e seu Filho Jesus. Assim o Pai justamente ofendido pelos pecados dos homens exige para salvar a humanidade uma reparação impossível de lha darmos e desta forma o Seu filho entregou a vida por nós.

Pois bem aqui surge uma ideia medieval do reparação do mal. O sacrifício era medido não somente pelo crime em si, mas principalmente em relação a quem foi praticado. Desta forma sendo Deus infinito obrigaria uma punição infinita, no entanto o homem ao ser finito jamais o conseguiria pagar na vida, assim mesmo após a morte estaria para sempre condenado ao inferno, a salvação procedente da graça de Deus viria não como uma natureza de Deus, mas como um satisfação sacrificial perante Deus, em que Deus dava a graça devido a se satisfazer com o sacrifício da punição.

No entanto a visão de que Deus exige para a salvação uma reparação, é totalmente incompatível do ponto de vista teológico, não há (nem sequer nas parábolas) uma relação direta a esse deus que busca sacrifícios. Jesus não foi dado ao sacrifício, ele aceitou o sacrifício, não como razão de satisfação ao Pai, mas como exemplo para os homens, no exemplo de levar a sua verdade até ao extremo, sem levantar a revolta destrutiva de todos, mas enquanto prova que jamais a glória se atinge no uso da brutalidade da vingança. A ressurreição espelha isto mesmo, o sacrifício não está em expressões destrutivas, mas sim no acolher a palavra, o sacrifício está na prática concreta da palavra, o “logos” é assim assumido e vivido em plenitude pelo homem, um pouco como o conceito grego com a virtude, com a razão, com o “logos”.
A gratuidade de Deus, está na mesma aceitação da vontade humana, se tal não fosse Deus não seria o amor puro, mas o negocio perfeito, já que a salvação estava remetida a uma troca, a um saldar de divida. Se tal fosse assim onde está a Boa Nova?!

Não busquemos o cordeio expiatório, alguém que carrega o mal sozinho...
Esta mania de buscarmos sempre o culpado é algo que nos acompanha na vida e na história ... ao contrário do que muitos apregoam: não é Deus o sádico, não é o Pai do sofrimento, nem o tal que nada faz; somos nós que usamos o sadismo contra os outros, impondo o sofrimento aos inocentes, e no fim a culpa é de Deus. Nós matamos mas Deus é que é o culpado por não fazer nada, nós destruímos o nosso planeta, mas Deus é que é o culpado por não ter evitado o ciclone, nós é que estamos descansados em casa no nosso conforto em frente a um computador construído na Ásia por crianças, mas Deus é que é o culpado por não evitar o aproveitamento de uns sobre os outros.
Afinal temos um novo cordeiro, ou melhor o cordeiro é o mesmo, o “bode expiatório” não mudou, é Deus. Deus é o culpado dos excessos religiosos, no entanto se não existissem religiões os excesso viriam de outros quadrante, a religião é uma expressão humana da compreensão esta faz do divino (de Deus), daí que as religiões estão completamente ligadas às culturas e tradições (mesmo seculares) dos povos, mais até que o próprio exercício teológico? O homem é o mesmo, não é o facto de não existir Deus que nos iria mudar, inventariamos novas justificações para a implementação do sofrimento, ou será que a história também não mostrou e não mostra?!

Pontos de clarificação:

. na Carta aos Hebreus, quando Paulo aborda a crucifixão a partir do sacrifício, está a referir esta aceitação, é importante não inventar metafísica onde ela não encaixa.

. na literatura dos primeiros cristãos (literatura neotestamentária) o “Pai do Céu” nunca aparece como “alguém” que exige previamente o sacrifício, a destruição, o sangue, a vida, para sua honra para desta forma, depois de satisfeito, perdoar. É precisamente o contrário, o Pai amou tanto o mundo que enviou o Seu Filho abrindo-nos a compreensão plena de que a salvação é sempre a natureza de Deus.

. Jesus (o Filho) nunca aparece (na tradição sinóptica, João, etc.) a influenciar o Pai a partir do seu sofrimento. Jesus jamais negoceia o que quer que seja para obter uma atitude mais benévola. Jesus o que clama é amor, jamais coloca Deus contra a parede, o se coloca na posição de se dar em sacrifício para agradar aos caprichos do Pai.

Não vou entrar agora numa analise da cruz, no sentido de quem a quis e porquê...

Vou terminar abordando o ponto em que se pode questionar esta análise.



“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.”
Mc 8,34


“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me.”
Lc 9,23

“Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me”
Mt 16,24

O que é levar a Cruz?

A cruz não é a obrigação de seguir Jesus, ela é a consequência de o seguir em verdade, sem desvirtuar a mensagem, incorporando a palavra e fazendo dela ação.
O que Jesus quer dizer pode ser dito da seguinte forma: se me queres seguir, prepara-te já que nunca será fácil, porque como o mundo está vão encontrar a “crucifixão”.

. Nem toda a desgraça, nem todo o sofrimento (por si sempre negativo) é uma cruz. Existem aqueles sofrimentos que são originados e provocados pela nossa própria ação (pecado em sentido teológico), muitas vezes na maneira insana de viver. Estes não são castigos merecidos, mas consequências evitáveis. No fundo há todo um sofrimento inútil e supérfluo, esses deveríamos de uma forma racional e óbvia evitá-los. Nem qualquer desgraça, nem qualquer sofrimento é uma cruz.


. Na realidade cruz, crucifixão, é aquela dor e sofrimento (etc.) que chegou à nossa vida como consequência do nosso seguir a Jesus.

A cruz não é o mal e o destino penoso da vida, mas sim o sofrimento que resulta (ou pode resultar) unicamente pelo facto de estarmos vinculados a Jesus. Na realidade seguir a Jesus não é buscar cruzes ou sofrimentos, mas aceitar a “crucifixão” quando ela aparece.


Isto não se enquadra com uma pessoa que se vitimiza na existência, mas aquela que vai na vida na busca de Jesus exibindo o seu sofrimento enquanto parte integrante desta entrega.
Daí que é errado aquele jeito (aliás bem português), de se não estamos mal, não podemos estar bem.

Infelizmente muitos procuram a “mortificação”, as cruzes, como forma de expressar a sua fé. Tudo o que é ascética eu valorizo, agora buscar cruzes para estarmos mais próximos de Cristo, não. Jesus não quis o sofrimento para nada, os seus sinais são claros, ele veio para tirar o sofrimento de quem sofria, de dar justiça a quem estava relegado à exclusão, etc.
Tudo isto Jesus fez, não negando ao Pai “bateu-se” por implementar uma forma renovada de convivência (Reino de Deus), e com isto obteve as consequências, não fugindo delas. Não foi o sangue que nos salvou, mas o amor gratuito que se deu até ao sangue, não porque o quisesse mas porque nós quisemos.

E parece que ainda queremos!